BABADO DA SEMANA

Como iniciou o casamento de Bebianno e Bolsonaro

Gustavo Bebianno, um fã que chegou ao coração da família Bolsonaro

Há seis meses, o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno, de 54 anos, sustentava-se oferecendo apoio jurídico a senhorinhas que batiam o carro em Copacabana e às intrincadas questões dos imóveis reclamados pela Arquidiocese na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Aos honorários de advogado somavam-se os quinhões que conquistava do conforto do lar a partir de operações de compra e venda de ações na bolsa de valores, por meio da internet.

QUEM É GUSTAVO BEBIANNO

Formado em Direito pela PUC-Rio e de família abastada — Bebianno é neto do ex-presidente do Botafogo, Adhemar Bebianno —, o atual ministro ingressou na carreira jurídica por meio de um estágio no escritório do renomado Sérgio Bermudes, onde conheceu a então trainee Marianna Fux, filha do atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux e hoje desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio.

De lá, Bebianno migrou para o cargo de diretor jurídico do Jornal do Brasil, onde estreitou relações com o empresário Paulo Marinho.

Já seu contato com o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro aconteceu por intermédio do engenheiro Carlos Favoretto, amigo do ex-publicitário Gutemberg Fonseca, atualmente secretário de governo de Wilson Witzel (PSC), governador do Rio.

Ainda durante a campanha, Bebianno, na condição de fã, apareceu em um estúdio na Barra da Tijuca onde Bolsonaro era fotografado.

Dia após dia, foi se aproximando, sempre ofertando auxílio jurídico à campanha.

Interlocutores que integraram o núcleo da campanha contam que o atual ministro costumava mostrar, como cartão de visitas, a tela do celular com conversas que mantinha com a amiga Marianna Fux.

À época, Luiz Fux tinha à mesa a denúncia de racismo contra Jair Bolsonaro, que, numa palestra, havia criticado duramente quilombolas da cidade onde cresceu, Eldorado Paulista.

Posteriormente, Fux votou pelo arquivamento da denúncia.

A intenção de se integrar ao entorno de Bolsonaro era antiga.

Bebianno enviou mensagens por Facebook e e-mails em que se oferecia para trabalhar na campanha do então deputado.

Além disso, o advogado já havia pedido ao sogro, coronel do Exército, que fizesse o meio-campo para um encontro com Bolsonaro em Brasília.
Sem sucesso.

Quando deparou com o rastro de processos de Bolsonaro abandonados à sorte da Justiça, Bebianno encontrou sua brecha.

De outsider político, manobrou para arrancar a candidatura de Bolsonaro do nanico Patriota e levá-la ao PSL de Luciano Bivar.

O êxito na manobra lhe garantiu a vaga de presidente interino do partido (Bebianno era apenas vogal no Patriota, de Adilson Barroso).

Faixa-preta em jiu-jítsu, Bebianno chegou a comparar a arte marcial japonesa com a política, no quesito “estratégia”.

Durante a campanha, o advogado passou a controlar um caixa de R$ 537 mil mensais do Fundo Partidário e R$ 9,2 milhões do Fundo Eleitoral e incumbiu-se de negociar as candidaturas estaduais do PSL para o Congresso.

A vocação para figurar como papagaio de pirata oficial de Bolsonaro — sempre ao lado de seu fiel escudeiro, o deputado paraibano Gulliem Charles Bezerra Lemos, conhecido como Julian Lemos — e a aproximação insistente, no estilo “chiclete”, acabaram irritando os filhos do então candidato.

Flávio não queria colocar Paulo Marinho como primeiro suplente em sua chapa ao Senado e rebaixar o amigo Léo Rodrigues à segunda suplência. A pedido do pai, contudo, cedeu.

Alimentado pelos informes de assessores — que, incrédulos, comentavam nos bastidores que Jair Bolsonaro tinha sido “enfeitiçado” por Bebianno —, Carlos observou atentamente as manobras do advogado para afastar antigos aliados do pai, como o próprio Patriota.

A contenda de agora, na qual Carlos Bolsonaro acusa Bebianno de ter mentido ao narrar encontros com Bolsonaro, é a expressão de uma desavença antiga.

Desde que Bebianno mencionou à imprensa que Carlos provavelmente seria o ministro da Comunicação, ainda no início da era Bolsonaro no Planalto, dando ao discurso um tom de soberania sobre o filho do meio do presidente, as farpas entre os dois passaram a se popularizar.

Em mensagens cifradas, Carlos costumava descarregar seu descontentamento no Twitter.

Depois das eleições de outubro passado, Bebianno cresceu com o PSL, que, com 52 deputados eleitos e o maior número de votos válidos conquistados, dispõe atualmente de um caixa partidário cerca de R$ 100 milhões mais gordo.

O advogado ganhou estatura ao ser nomeado ministro, mas sofreu um revés logo depois.

Por influência de Carlos, Bolsonaro decidiu tirar do guarda-chuva da Secretaria-Geral da Presidência o bilionário Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) e transferi-lo a Carlos Alberto dos Santos Cruz, nomeado secretário de Governo.

As mutretas que, segundo assessores, Bebianno conduzia em sigilo durante a campanha — algumas das quais começaram a ser reveladas pelo jornal Folha de S.Paulo neste mês — parecem, cada dia mais, deixar o mundo das sombras e ganhar a luz.

Se depender dos filhos de presidente, esse holofote não se apaga tão cedo.

Por Bruno Abbud (O Globo)

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