O governador do Maranhão, Carlos Brandão (PSB), está no centro de uma nova polêmica que escancara o uso de recursos públicos para interesses privados. Segundo reportagem publicada nesta terça-feira (29) pelo jornal O Estado de S. Paulo, o governo maranhense está investindo R$ 280 milhões na pavimentação da rodovia MA-372, que liga os municípios de São Domingos do Azeitão e Mirador — região onde estão localizadas as fazendas da família Brandão.
A obra, bancada com um empréstimo do Banco do Brasil, é tida como a maior intervenção viária do governo Brandão e, segundo a apuração do Estadão, favorece diretamente propriedades rurais ligadas ao clã do governador. A situação lembra o escândalo protagonizado pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que foi acusado de asfaltar com dinheiro público uma estrada que leva à fazenda de sua família.
Estrada do agronegócio familiar
De acordo com a reportagem, a área rural da família Brandão triplicou de tamanho nos últimos anos, saltando de 2 mil para 7,5 mil hectares entre 2020 e 2024 — período em que os investimentos agropecuários do grupo se intensificaram. As terras, que agora produzem principalmente soja e arroz, ficam a apenas 7 km do novo traçado da MA-372, e já contam com uma pista de pouso privada, aprovada pela ANAC meses antes da licitação da estrada.
A análise de imagens de satélite feita pelo jornal mostra a expansão das lavouras ao longo do trajeto da rodovia. A proximidade entre a estrada e as propriedades da família Brandão inclui até placas indicativas da distância até as sedes das fazendas.
Enquanto isso, a família Brandão recebeu R$ 58 milhões em financiamentos rurais, majoritariamente do Banco do Nordeste, para ampliar suas plantações — recursos obtidos em paralelo à construção da estrada.
Empresas, laranjas e parentes no TCE
As fazendas estão formalmente registradas em nome de Jesus Boabaid, sobrinho do governador, mas são operadas por um conjunto de holdings familiares, como a Olea Participações (ligada a Carlos Brandão), MBBrandão (de Marcus Brandão) e JHBB (de José Henrique Brandão).
Boa parte das terras foi adquirida por meio de contratos futuros de soja, uma operação onde os antigos proprietários são pagos com parte da produção futura — exatamente a produção que será escoada pela nova rodovia asfaltada com dinheiro público.
A reportagem também revela que o conselheiro do TCE-MA, Daniel Itapary Brandão — filho de José Henrique Brandão e sobrinho do governador — aparece como sócio da empresa Coagri, responsável pela operação agrícola. Sua nomeação para o cargo vitalício no Tribunal de Contas do Estado foi alvo de ação judicial por suspeita de nepotismo e conflito de interesses, já que ele agora fiscaliza as contas do governo do próprio tio.
Governo admite benefício, mas tenta justificar
Em nota ao Estadão, o governo do Maranhão reconheceu que a rodovia beneficia fazendas da família do governador, mas afirmou que não é uma exclusividade, alegando que a estrada atenderia também outros produtores e reduziria em até 130 km o trajeto entre a região do Matopiba (fronteira agrícola entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e o Porto do Itaqui, em São Luís.
No entanto, enquanto regiões densamente povoadas como a Baixada Maranhense continuam com estradas intrafegáveis — como as MAs 014 e 106 —, o governo estadual acelera o asfalto para áreas de interesse pessoal e empresarial do próprio chefe do Executivo.
A pergunta que não cala
A semelhança com o escândalo de Romeu Zema, que asfaltou estrada para sua fazenda em Minas, é inegável. Agora, a dúvida que paira é: Carlos Brandão se inspirou no bolsonarista mineiro ou apenas seguiu o mesmo caminho por conveniência?
Enquanto isso, o Maranhão — um dos estados com os piores indicadores sociais do país — segue assistindo a um governo que prioriza asfalto para seus próprios negócios em detrimento das necessidades da população.
Por O Estadão
