O governo do Maranhão enfrenta uma nova denúncia de uso da máquina pública para beneficiar aliados políticos e familiares do governador Carlos Brandão (PSB). Segundo reportagem publicada nesta quarta-feira (30) pelo jornal O Estado de S. Paulo e pelo portal Terra, a rodovia MA-372 — apelidada de TransBrandão — apresenta um traçado modificado que favorece diretamente um aliado do governador e o irmão dele, dono de uma das empreiteiras responsáveis pela obra.
A rodovia é considerada a maior obra de infraestrutura da atual gestão, com orçamento de R$ 280 milhões financiados pelo Banco do Brasil. O trecho em questão liga os municípios de São Domingos do Azeitão a Mirador, na região sul do Maranhão. No entanto, o ponto inicial da estrada começa cerca de 10 km antes do centro urbano de São Domingos, justamente nas proximidades das propriedades rurais do ex-prefeito Nicodemos Ferreira, hoje aliado político de Brandão. O novo traçado ignora o centro da cidade e a rota tradicional pela BR-230, conhecida como Rodovia Transamazônica.
A empresa TAC Construções, contratada para executar 31,1 km da estrada ao custo de R$ 77,8 milhões, pertence a Roberto Ferreira, irmão de Nicodemos. Ambos aparecem em fotos ao lado do governador no lançamento da obra, usando bonés com a marca da empreiteira. Procurados pelo Estadão, os dois não quiseram comentar o caso.
Prefeito denuncia isolamento da cidade
O atual prefeito de São Domingos do Azeitão, Lourival Júnior (PP), conhecido como Júnior do Posto, gravou vídeos criticando o novo trajeto da estrada, apontando que ele isola a cidade e favorece apenas um produtor rural, em referência a Nicodemos. “O projeto, tal como está sendo executado, vai beneficiar apenas um produtor, deixando nossa cidade isolada”, escreveu o prefeito em suas redes sociais. Comerciantes e empresários locais também temem prejuízos com a queda no fluxo de veículos, o que pode impactar postos de combustíveis, restaurantes e hotéis.
Segundo a reportagem do Estadão, Nicodemos Ferreira possui pelo menos 15 mil hectares de terras na região próxima ao novo traçado — o equivalente a 21 mil campos de futebol. Já seu irmão, Roberto, proprietário da empreiteira, tem cerca de 870 hectares. Os dados foram cruzados com registros agrários e ambientais obtidos pelo Estadão.
Falta de transparência e suspeita de direcionamento
O processo licitatório da obra também levanta suspeitas. O Portal da Transparência do governo do Maranhão não informa quais empresas participaram da concorrência, nem disponibiliza os anexos do edital que detalham o traçado da rodovia. A Secretaria de Infraestrutura alegou que os documentos são “volumosos demais” para digitalização e orienta os interessados a irem pessoalmente ao órgão para consultar os dados — o que restringe o acesso à informação e compromete a transparência do processo.
Além disso, a reportagem aponta que a licitação coincidiu com investimentos recentes da família Brandão na região, tradicionalmente voltados ao município de Colinas, terra natal do governador. O desvio na estrada, somado ao contexto político e econômico local, reforça a tese de uso direcionado de recursos públicos para ampliar o patrimônio político e produtivo de aliados.
Silêncio do Palácio dos Leões
Diante da repercussão nacional, o governo Carlos Brandão não emitiu nota oficial sobre as denúncias. O caso reacendeu críticas sobre o uso da estrutura do Estado para fins particulares e políticos, especialmente em um momento em que comunidades enfrentam dificuldades de infraestrutura em outras regiões do Maranhão.
Adversários do governador veem no episódio mais um indício de que a gestão estadual atua para fortalecer grupos econômicos ligados ao poder, deixando de lado o princípio da impessoalidade e o interesse público. Apesar das cobranças de moradores e representantes políticos, o governo mantém o traçado original da rodovia e um silêncio ensurdecedor.
Fonte: O Estadão
