Após O Globo e a Folha destacarem aproximação de Carlos Brandão com bolsonaristas, governador tenta mostrar fidelidade a Lula

Governador do Maranhão alimenta um projeto familiar de poder e acabou escanteando o vice do PT, Felipe Camarão.

Uma matéria assinada pelo jornalista Lauro Jardim, em sua coluna de O Globo, e a entrevista do vice-governador Felipe Camarão à coluna Painel da Folha de S.Paulo, neste fim de semana, soaram o alerta no Palácio dos Leões e forçaram o governador Carlos Brandão a se explicar nas redes sociais, tentando demonstrar fidelidade ao presidente Lula — embora todo maranhense saiba que Brandão nunca foi lulista. Ele apenas subiu no palanque de Lula em 2022 por imposição de Flávio Dino.

Na matéria de O Globo, Lauro Jardim destacou que Brandão, ex-aliado de Dino, não apenas se distanciou da ala “dinista” como também se aproximou de setores do bolsonarismo. Entre os nomes com quem já dividiu a gestão estão Mical Damasceno (PTB), Yglésio Moysés (PRTB) e, agora, Aluísio Mendes (Republicanos).

Há algumas semanas, durante aniversário da cidade de Urbano Santos, Aluísio — ex-vice-líder do governo Bolsonaro e um dos seus aliados mais fiéis — oficializou apoio à gestão de Brandão, com vistas a fortalecer a base governista para 2026. Em troca, ganhou o comando da Secretaria de Esportes, entregue ao seu aliado Celsinho, já nomeado pelo governador.

Brandão também tem feito acenos a deputados federais ligados ao bolsonarismo, como Juscelino Filho, André Fufuca e Pedro Lucas Fernandes, enquanto ignora completamente seu vice, Felipe Camarão (PT), pré-candidato ao governo e politicamente rompido com o titular. Camarão sequer é convidado para atos oficiais e tem mantido uma agenda própria, focada nas eleições.

Quem vem ocupando esse espaço institucional e simbólico é o sobrinho do governador, Orleans Brandão, apelidado nos bastidores de “Bebê Reborn” do Palácio. Mesmo exercendo uma função esvaziada, Orleans virou uma espécie de supersecretário informal, acompanhando o tio em eventos — ou até sem ele — e participando até de velórios, inaugurações e reuniões com prefeitos, como parte do projeto político familiar dos Brandão.

Embora ainda não tenha oficializado seu apoio a um nome para a sucessão, interlocutores apontam que Brandão pretende lançar Orleans Brandão, filho de Marcus Brandão, como seu sucessor. O movimento tem gerado desconforto dentro da base aliada.

Há, ainda, especulações de que o governador possa abrir mão da candidatura ao Senado, apoiando um nome mais identificado com a direita. O ministro André Fufuca é o mais cotado, mas o deputado Pedro Lucas Fernandes já teria manifestado interesse na disputa.

Nos bastidores, Brandão também travou uma disputa com o PCdoB, antigo partido de Flávio Dino. Como retaliação, exonerou membros da legenda que ocupavam cargos no governo estadual. O motivo da crise: o partido pediu ao STF para ingressar como amicus curiae na ação que questiona os critérios de escolha dos conselheiros do TCE-MA — processo que será relatado por Flávio Dino. Brandão não gostou nada da movimentação.

Em entrevista publicada neste domingo (13) pela Folha de S.Paulo, o vice-governador Felipe Camarão (PT) acusou Brandão de provocar um racha na base aliada de Lula no Maranhão. Segundo ele, o compromisso firmado em 2022 previa que Brandão deixaria o governo em abril de 2026 para disputar o Senado, abrindo espaço para Camarão disputar o governo. Mas a pré-candidatura de Orleans teria rompido o acordo e dividido o grupo.

“Sabe quem é o maior prejudicado com isso? É o Lula. Porque se o nosso time se divide aqui, como o Brandão está rachando, o maior prejudicado vai ser o presidente. Se o grupo sair dividido, pode surgir no Maranhão um terceiro agente fora da base que vença as eleições do ano que vem”, afirmou Camarão.

Ele reforçou que sua prioridade é a reeleição de Lula e que a manutenção da unidade no estado é fundamental. O cenário de divisão, segundo o vice-governador, pode beneficiar a candidatura do atual prefeito de São Luís, Eduardo Braide, que lidera todas as pesquisas até agora, mesmo sem anunciar oficialmente que disputará o governo.

A sede de poder da família Brandão pode, ironicamente, facilitar o caminho para Braide. Caso a oposição se una, Brandão e seus aliados podem cair juntos em 2026 — e o atual governador correr o risco de virar um novo Zé Reinaldo Tavares, que elegeu o sucessor em 2006, mas sumiu do mapa político logo depois.

E como todos sabem no Maranhão, Carlos Brandão nunca foi aliado de Lula. Sua trajetória política sempre esteve ligada ao PSDB, ao lado de Geraldo Alckmin, José Serra, Aécio Neves e Roberto Rocha. Em 2022, como vice de Flávio Dino, foi praticamente forçado a se filiar ao PSB e declarar voto em Lula, apesar de não ser lulista, nem progressista. Com a ascensão da extrema-direita, Brandão tem se sentido à vontade ao lado da ala bolsonarista — o que evidencia que sua permanência no campo lulista é puramente estratégica, uma tentativa de se beneficiar do governo federal.

Sair da versão mobile