Governador Brandão erra ao se aproximar do bolsonarismo no Maranhão
Apesar de se declarar aliado de Lula, Brandão já contava com figuras conservadoras como Josivaldo JP, Mical Damasceno, Pedro Lucas, Fufuca e Yglésio; agora, recebe também a adesão de Aluísio Mendes.

Este texto não é uma análise sobre bolsonarismo ou lulismo, tampouco uma defesa da direita ou da esquerda. Trata-se de uma reflexão sobre estratégia política, sobretudo pensando nas eleições de 2026 e no rumo que a base governista deve seguir no Maranhão.
Nas últimas semanas, ficou evidente o movimento do governador Carlos Brandão (PSB), que já afirmou que cumprirá seu mandato até o fim, em direção à ala bolsonarista maranhense — mesmo aquela que, até pouco tempo, atuava na oposição, ainda que discretamente. Brandão não apenas admite os diálogos, como também posa para fotos ao lado de figuras do espectro mais radical da política estadual.
Esse reposicionamento, no entanto, incomoda aliados históricos do grupo governista, como integrantes do PCdoB, PSB e do próprio PT — partidos que sustentaram três vitórias consecutivas no Maranhão desde 2014. E sejamos francos: essa aproximação é politicamente equivocada. Provoca desconforto em aliados leais a Flávio Dino e expõe Brandão a um racha interno difícil de recompor.
Em um texto anterior, destaquei um novo perfil que emergiu desse cenário: os “lunaristas” — políticos que se dizem bolsonaristas, mas não abrem mão dos cargos em um governo alinhado ao presidente Lula. Um exemplo notório é o da deputada Mical Damasceno, que se apresenta como conservadora, mas, junto com seu pai, ocupou posições de destaque na gestão comunista de Flávio Dino.
O primeiro ponto a ser considerado nessa aliança controversa é que ela, simplesmente, não faz sentido. Sob uma ótica estratégica, ela pouco ou nada agrega à base governista. O eleitorado bolsonarista no Maranhão já demonstra clara preferência por nomes como Eduardo Braide ou Lahésio Bonfim, que se apresentam como opções de oposição e, consequentemente, mais alinhadas ao pensamento desse grupo.
Em 2022, Lahésio por pouco não chegou ao segundo turno, com o apoio massivo da direita maranhense. Esse eleitorado migra naturalmente para candidatos mais próximos de sua linha ideológica, sem a necessidade de acenos de Brandão ou qualquer outro nome do campo progressista.
Outro fator relevante vem das eleições municipais de 2024. O eleitor brasileiro tem sinalizado um desejo por nomes que escapem da polarização superficial entre esquerda e direita. Em São Luís, por exemplo, as pesquisas apontaram uma tendência clara de reeleição do prefeito Eduardo Braide, justamente por sua postura independente diante da disputa nacional. Braide venceu no primeiro turno em 2024 com mais de 70% dos votos, dialogando tanto com eleitores de direita quanto de esquerda — e já se posiciona como um possível nome forte para a sucessão estadual.
Nesse contexto, a guinada de Brandão rumo ao bolsonarismo pode custar caro. E esse custo pode recair diretamente sobre o seu sobrinho, Orleans Brandão — um jovem inexperiente, com dificuldades de articulação e expressão pública, mas que já se apresenta como pré-candidato ao Governo do Estado.
Além do desgaste externo, a aproximação com figuras bolsonaristas desestabiliza a coesão interna de um grupo que tem se mantido relativamente unido desde 2014. Coloca em posição constrangedora o vice-governador Felipe Camarão (PT) e demais políticos da ala dinista, que enfrentaram e derrotaram o sarneysismo e agora veem Brandão tentar colar os cacos de um bolsonarismo oportunista.
Explicar para o eleitor maranhense — que elegeu Lula em quase todos os municípios nas últimas eleições — um palanque que una lulistas e bolsonaristas será um desafio retórico quase impossível para os brandonistas. Vale lembrar que o próprio Brandão já foi opositor ferrenho do PT. Hoje, só bebe da mesma água porque Flávio Dino abriu o caminho e a torneira.
Para piorar, as disputas internas e as contradições entre os bolsonaristas maranhenses não são segredo para ninguém. A petista Iracema Vale, presidente da Assembleia Legislativa, já foi escalada para cumprir papel de articulação em favor de Orleans Brandão — um nome sem experiência administrativa sequer para comandar uma banca de jornal.
A verdade é que essa manobra pode sair muito mais cara do que Brandão e seus aliados estão dispostos a admitir. O risco é real, e o dano à base pode ser irreparável. O futuro da aliança depende, agora, do discernimento — ou da ganância — de seus principais protagonistas.
Por João Filho – Jornalista, Radialista e Pesquisador



