Há situações que parecem desafiar a lógica da administração pública — e a história da Companhia de Limpeza e Serviços Urbanos de São Luís (Coliseu) é uma delas. Extinta oficialmente em 2007 e sem exercer há anos as atividades que justificaram sua criação, a empresa pública continua demandando recursos do Tesouro Municipal.
Conforme levantamento divulgado pelo jornalista Davi Max, com base em dados do Portal da Transparência da Prefeitura de São Luís e em peças orçamentárias, a administração do ex-prefeito Eduardo Braide (PSD) destinou aproximadamente R$ 132,4 milhões à Coliseu entre 2021 e 2026, considerando os dados disponíveis até 31 de março deste ano.
O valor chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pela situação da própria companhia. A Coliseu está em processo de liquidação há cerca de 19 anos, depois de ter sido extinta por decreto durante a gestão do ex-prefeito Tadeu Palácio, em 2007.
A pergunta que naturalmente surge é: por que uma empresa pública extinta há quase duas décadas continua consumindo milhões de reais dos cofres municipais?
Uma empresa que deixou de operar, mas não deixou de custar
A Coliseu foi criada em julho de 1975 e durante décadas desempenhou papel importante na limpeza pública de São Luís. Com o passar dos anos, porém, a companhia acumulou problemas financeiros e administrativos, chegando à situação de insolvência.
Segundo as informações levantadas, a empresa possui cerca de 500 trabalhadores com vínculo celetista, muitos deles cedidos para órgãos e secretarias municipais. A folha de pagamento da companhia representaria atualmente uma despesa próxima de R$ 1,1 milhão por mês, o equivalente a aproximadamente R$ 13,7 milhões por ano.
Ou seja, embora a empresa tenha deixado de exercer a função para a qual foi criada, a conta continua chegando — e sendo paga com dinheiro público.
É justamente aí que está o ponto mais incômodo dessa história: a extinção administrativa da companhia não significou o fim das despesas relacionadas à sua estrutura e às obrigações acumuladas ao longo de décadas.
A “rainha da corrupção”
A história da Coliseu também é marcada por denúncias e suspeitas de irregularidades administrativas.
Em legislaturas anteriores, o então vereador Estevão Aragão (PSB) chegou a solicitar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de São Luís para investigar problemas relacionados à companhia. A proposta, entretanto, não avançou.
Na época, o então vereador Francisco Chaguinhas (Podemos) chegou a classificar a Coliseu como a “rainha da corrupção”, em referência ao histórico de denúncias envolvendo diferentes administrações municipais.
Entre os fatos que poderiam ser investigados estavam denúncias relacionadas à venda de caminhões, possíveis irregularidades fiscais, pagamentos questionados, despesas sem licitação e contratos de aluguel de veículos.
São acusações que precisam ser tratadas com responsabilidade e confrontadas com documentos, investigações e decisões dos órgãos de controle. Mas o simples fato de uma empresa pública carregar por décadas um histórico tão controverso já seria motivo suficiente para que o Município adotasse uma postura de absoluta transparência sobre cada centavo destinado à sua manutenção.
Braide e o aumento das despesas
Durante a gestão de Eduardo Braide, os valores previstos no orçamento para a Coliseu também chamam atenção.
Em 2021, primeiro ano do governo Braide, foram previstos R$ 10,18 milhões para a companhia. No ano seguinte, o montante subiu para R$ 12,94 milhões.
Em 2023, a previsão chegou a R$ 13,75 milhões.
Somados apenas esses três exercícios, os valores alcançaram aproximadamente R$ 36,89 milhões.
O cenário se torna ainda mais questionável quando os números são colocados lado a lado com áreas que efetivamente prestam serviços diretamente à população.
Mais dinheiro para uma empresa parada do que para áreas essenciais?
Em 2023, por exemplo, a previsão orçamentária da Coliseu, de R$ 13,75 milhões, superava os recursos destinados a algumas áreas da administração municipal.
A Secretaria Municipal de Desporto e Lazer (Semdel) contava com aproximadamente R$ 7,88 milhões; a Secretaria Municipal de Turismo (Semtur), com cerca de R$ 4,38 milhões; e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmam), com aproximadamente R$ 3,12 milhões.
A comparação, por si só, não significa que os recursos destinados à Coliseu poderiam simplesmente ser transferidos para essas secretarias. São estruturas com finalidades, despesas e obrigações diferentes.
Mas o contraste serve para levantar uma questão que não pode ser ignorada: como uma companhia extinta e em liquidação há quase 20 anos consegue demandar recursos superiores aos de setores responsáveis por políticas públicas em áreas como esporte, turismo e meio ambiente?
Um problema que atravessa governos
Seria injusto colocar toda a responsabilidade pelo problema exclusivamente sobre Eduardo Braide.
A Coliseu não nasceu durante sua administração. Seu processo de decadência se arrasta há décadas e atravessa diferentes governos municipais.
A companhia começou suas atividades em 1975 e, segundo os levantamentos históricos, entrou em processo de deterioração financeira a partir da década de 1980. A aquisição de caminhões e equipamentos que posteriormente teriam se mostrado inadequados para as necessidades da empresa contribuiu para o agravamento de suas dificuldades financeiras.
A situação se deteriorou ao longo dos anos, com o acúmulo de dívidas e problemas administrativos, até que a Prefeitura decidiu extinguir a companhia em 2007.
O problema é que extinguir uma empresa no papel não significa necessariamente eliminar suas obrigações.
E é justamente essa herança que continua sendo paga pelo contribuinte.
Até quando?
O caso da Coliseu revela um dos problemas mais difíceis de enfrentar na administração pública: estruturas criadas para atender a uma determinada necessidade que deixam de cumprir sua função, mas continuam existindo financeiramente por décadas.
Se há funcionários, dívidas, obrigações trabalhistas e previdenciárias, contratos e outros passivos, tudo precisa ser devidamente contabilizado e quitado. Mas isso não significa que o contribuinte deva aceitar, sem questionamentos, uma situação que parece não ter prazo para terminar.
A Prefeitura de São Luís precisa explicar, com números e documentos, quanto ainda deve à Coliseu, quanto já gastou desde a sua extinção, quantos funcionários permanecem vinculados à companhia, quais são as obrigações que justificam os pagamentos e qual é o prazo previsto para o encerramento definitivo da liquidação.
Afinal, uma empresa que deixou de operar há quase duas décadas não pode se transformar em uma espécie de “caixa-preta” permanente das contas municipais.
O cidadão ludovicense tem o direito de saber para onde está indo cada real.
E, principalmente, tem o direito de perguntar: se a Coliseu foi extinta em 2007, por que a conta continua tão viva em 2026?
Orçamento em números durante a gestão de Braide entre 2021 a 2026
Ano/Valor
- 2026: R$ 13.514.300,94
- 2025: R$ 13.323.477,02
- 2024: R$ 11.300.233,28
- 2023: R$ 13.754.757,16
- 2022: R$ 12.948.517,00
- 2021: R$ 10.187.707,78
- 2020: R$ 19.570.210,99
- 2019: R$ 15.210.651,89
- 2018: R$ 15.287.310,43
- 2017: R$ 7.339.111,21
Total: R$ 132.436.277,71
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