No Brasil, a política há muito tempo se transformou em um negócio de família. O poder transita entre pais, filhos, esposas, netos, primos, cunhados e sobrinhos — um verdadeiro legado hereditário. No Maranhão, essa realidade não é diferente. Mas não se trata de uma tradição aberta a qualquer família: o acesso a esse ciclo fechado depende de influência, prestígio e, sobretudo, poder econômico. Às famílias pobres, resta apenas o papel de eleitor ou, em casos mais graves, de candidatos laranjas usados para beneficiar os verdadeiros donos do jogo.
Os principais defensores desse modelo são justamente aqueles que se beneficiam dele. O deputado estadual Neto Evangelista, por exemplo, iniciou sua trajetória política após a morte do pai, João Evangelista (in memoriam), ex-presidente da Assembleia Legislativa. Neto cresceu embalado pelo capital político herdado, e hoje não esconde o orgulho de manter a tradição familiar. Em 2024, usou sua estrutura de campanha e influência para eleger a esposa vereadora de São Luís — uma figura completamente desconhecida da população.
Outro exemplo emblemático é o deputado Osmar Filho. Ele seguiu os passos do pai, juiz Osmar Gomes, que já tentou se firmar como liderança política no interior do estado. Osmar Filho consolidou seu espaço em São Luís como vereador e depois deputado estadual. Este ano passado, elegeu também a esposa vereadora da capital, repetindo a fórmula do investimento financeiro aliado à herança política, sem base popular autêntica.
A Assembleia Legislativa do Maranhão se tornou, assim, um espelho do que é a política local: um negócio restrito a dinastias. A própria presidente da Alema, Iracema Vale, percorreu uma trajetória política que envolve cargos de vereadora, prefeita e, agora, deputada estadual. Seu clã político inclui um filho vice-prefeito em uma cidade do interior e outro como prefeito de Barreirinhas. A lógica de perpetuação familiar no poder está mais viva do que nunca.
Se formos analisar individualmente os parlamentares da Assembleia, poucos escapam desse ciclo hereditário. Um dos poucos nomes dissociados dessa lógica é o de Wellington do Curso, cuja origem política não está ligada a nenhum clã tradicional. A maioria, no entanto, tem sobrenome com pedigree eleitoral. Essa lógica é endossada inclusive pelo Palácio dos Leões, que já se estrutura como uma extensão da “empresa familiar” do governador Carlos Brandão. Fala-se, nos bastidores, da possível indicação de Orlenas Brandão — filho de Marcus Brandão — a um cargo de destaque, consolidando a influência familiar como um projeto de governo.
A lista é longa e escancara o vício sistêmico: Pará Figueiredo (filho de um juiz), Glaubert Cutrim (filho de Edmar Cutrim, ex-deputado e ex-conselheiro do TCE), Solange Almeida (esposa de um ex-prefeito), Dra. Viviane (também esposa de um ex-prefeito), Davi Brandão (filho do ex-prefeito Edvan Brandão), Florêncio Neto (filho do ex-deputado Carlinhos Florêncio), Neto Evangelista (filho do ex-deputado João Evangelista), Daniela Gentil (esposa do ex-prefeito de Caxias), Fabiana Villar (sobrinha de Josimar de Maranhãozinho), Fernando Braide (irmão do prefeito de São Luís, Eduardo Braide), entre outros, que só ingressaram ao palácio Manoel Beckman por influência de um familiar poderoso. Apenas Wellington e, com alguma ressalva, Yglésio, parecem alheios a esse sistema de herança política.
A política no Maranhão virou um clube fechado, onde a renovação é, na prática, uma reconfiguração dos mesmos sobrenomes. Não se rompe com o passado; apenas se empacota em novas embalagens. O resultado disso é um sistema onde a lógica da representatividade dá lugar à lógica da sucessão hereditária, como se os cargos públicos fossem bens de família a serem transmitidos de geração em geração — e o eleitor, um mero figurante num teatro encenado com recursos públicos.
No fundo, a população entende o real motivo por trás da bajulação de quem defende que Brandão transforme o Palácio dos Leões em um negócio de família: o medo de perder cargos na estrutura do governo.
