A humilhação dos caminhoneiros na travessia de ferryboat expõe o descaso do governo Brandão

Com dois ferryboats abandonados pelo atual governo, motoristas chegam a esperar até 30 horas para embarcar no Porto de Cujupe.

A travessia entre o terminal da Ponta da Espera, em São Luís, e o porto de Cujupe, em Alcântara — principal ligação da capital com a Baixada e o Litoral Ocidental Maranhense — tornou-se um verdadeiro calvário para quem depende do transporte marítimo. O sistema de ferryboats, que deveria garantir mobilidade e dignidade aos maranhenses, virou sinônimo de humilhação e desrespeito, especialmente para os caminhoneiros.

Quem precisa atravessar de veículo paga caro, enfrenta longas filas e encara o risco de embarcar em ferrys velhos, enferrujados e superlotados. A falta de fiscalização por parte da Marinha e da Capitania dos Portos permite que embarcações operem acima do limite de segurança, o que aumenta ainda mais o sentimento de insegurança entre os passageiros.

Se a situação já é constrangedora para motoristas de automóveis, para os caminhoneiros ela se torna desumana. No terminal de Cujupe, muitos aguardam até 30 horas para conseguir embarcar — principalmente nos fins de semana — sem qualquer estrutura mínima para higiene, alimentação ou descanso. O terminal é distante da fila principal, e quem fica à margem da MA-106 precisa improvisar até mesmo para fazer as necessidades básicas.

Implantado pela Emap, o sistema atual permite que cada embarcação transporte entre quatro e seis caminhões por viagem, o que é insuficiente para a demanda. O resultado é prejuízo em cadeia: produtos perecíveis se perdem, comerciantes sofrem com atrasos e a economia da Baixada é afetada. Estima-se que cerca de 99% dos caminhões que atravessam transportam alimentos, animais e hortaliças.

Durante visita ao local na noite de sexta-feira (10), a reportagem do G7 ouviu relatos comoventes. O caminhoneiro Vicentino Albuquerque Amorim, que há duas décadas faz a rota entre Apicum-Açu e São Luís transportando peixes, revelou estar desanimado com a profissão:

“Eu faço essa travessia há 20 anos. No início acreditava que um dia melhoraria, mas hoje, com 60 anos, só vejo piorar. O governo Carlos Brandão, em vez de facilitar a vida do baixadeiro, está piorando. Pagamos caro e ainda somos humilhados. Aqui há uma máfia que a polícia precisa investigar. É corrupção escancarada. O governo tomou os barcos da Servi Porto, prometeu reformar e nada fez. Agora estamos sofrendo, e muitos têm medo de denunciar”, relatou.

Os motoristas atribuem o caos à falta de embarcações grandes e em boas condições. Atualmente, apenas o São Gabriel, da Henvil, e o Cidade de Araioses, da Servi Porto, possuem capacidade para mais de 70 veículos. Mesmo assim, o São Gabriel evita realizar viagens extras, o que agrava ainda mais a espera e o desespero dos caminhoneiros.

Outro motorista ouvido pelo G7, mas que preferiu ficar no anonimato, afirmou que o problema se agrava com a sucessão de administrações e a ausência de políticas eficazes:

“Para os passageiros comuns até melhorou um pouco, mas para nós, que transportamos mercadorias, está pior a cada dia. Toda vez que o sistema entra em crise, o governo muda o gestor: era a MOB, depois passou para a Emap e agora está com a SEGOV. O foco deles não é melhorar o serviço, é controlar o faturamento das empresas. O caos é conveniente para quem lucra com ele”, descreveu o caminhoneiro.

Enquanto isso, deputados governistas permanecem em silêncio, fingindo que a situação está sob controle, mesmo sabendo que o colapso no sistema se arrasta desde 2022. A Internacional Marítima, apesar das limitações, é quem tem sustentado parte das operações, realizando viagens extras para compensar as falhas das empresas Henvil e Servi Porto — ambas com embarcações em condições precárias. O São Gabriel por exemplo, demora quase 2h para fazer um percurso de 1h10. O mesmo acontece com o Cidade de Araioses.

O descaso do governo com o sistema de ferryboats reflete uma política pública que falhou em garantir o básico: transporte digno, seguro e eficiente. O resultado é um retrato cruel do Maranhão real — onde quem trabalha e produz, como os caminhoneiros, é tratado com indiferença e submetido à humilhação em pleno século XXI.

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