Ela fugiu para escapar da violência doméstica. Foi ameaçada de morte. Teve os seis filhos apreendidos pelo marido violento. Conseguiu recuperar um por um, usando a força e a coragem. A história de Doninha emociona.
Doninha é o apelido carinhoso de Urselina, esta delicada senhora de 84 anos, maranhense de Amarante e que mora em Brasília há cerca de 40 anos. Sua história de vida, ao mesmo tempo que emociona, é um exemplo de resistência e coragem para todas as mulheres vítimas do machismo e da violência doméstica.
Conheci dona Doninha na última terça-feira, quando estive em Brasília. Seu relato é carregado de emoção. Ela conta que foi obrigada, pelo pai, a se casar, aos 15 anos, com Tibúrcio, um homem que trabalhava na fazenda da famíla dela e, com ele, teve seis filhos. Movido a um ciúme doentio, Tibúrcio era rude e muito violento. Primeiro vieram os xingamentos, as humilhações e o desrespeito. Depois, começaram os espancamento e, por último, as ameaças de morte até na frente dos filhos.
Doninha apanhou muito e diz que resistiu o quanto pode, mas percebeu que, se continuasse convivendo com o marido, acabaria morrendo de tanta pancada. Desesperada, fugiu de Amarante apenas com a roupa do corpo, deixando os seis filhos. Afirma que, naquele momento, era impossível levá-los. “Ou eu fugia ou ficava e morria”. Ela diz que, na fuga desesperada, pegou caronas em caminhões na estrada até chegar a Anápolis (GO).
Inquieta, Doninha resolveu voltar à sua cidade para resgatar as seis crianças, mas Tibúrcio se negava a entregá-las. Então, ela diz que foi obrigada a ‘roubar’ os filhos, um por um. Mas não foi fácil. Viajava de Anápolis até Amarante, pegava as crianças de volta, mas o marido contratava pistoleiros para matá-la. Tibúrcio retomava os filhos usando a força e ela voltava para resgatar. E ainda era obrigada a se esconder para não ser assassinada.
Em uma das tentativas de resgate de um dos filhos, Doninha conta que derrubou a machadadas a porta da casa onde a criança era mantida trancada. Ela lembra que um dos filhos estava desnutrido e, por conta disso, contraiu beribéri. “O Tibúrcio dizia que o menino doente eu podia levar porque era um inútil e não servia para nada”.
Dona Doninha relata que as crianças eram muito mal cuidadas pelo pai, que as obrigava a trabalhar muito. O filho mais velho, com 12 anos, era o mais sobrecarregado de trabalho e não recebia quase nenhuma alimentação. Um dia o menino fugiu correndo por dentro do mato para se encontrar com a mãe. Uma das meninas, com 5 anos, quando Doninha a resgatou do pai, tinha larvas na cabeça e bicho nos pés. Sinais de maus tratos e abandono.
Após muita luta, dona Doninha conseguiu resgatar os seis filhos e os levou para Anápolis. Anos depois, se mudaram para Brasília, onde ela se estabeleceu, com bravura e resistência, garantindo, com a força do seu trabalho de costureira, bons estudos a todos os filhos. Tornou-se uma das maiores referências da alta costura brasiliense, atendendo a mulheres ricas, esposas de senadores, ministros e até de ex-Presidentes da República, por muitos anos.
Todos os filhos fizeram faculdade e “se tornaram doutores”, conta ela com orgulho. Doninha também ajudou muitos jovens do Maranhão, acolhendo-os em sua casa, em Brasília, colocando para estudar. “Foram mais de 20 filhos postiços que hoje estão bem encaminhados na vida”, diz ela.
Apesar de todo o sofrimento que passou, Doninha diz não sentir raiva de Tibúrcio, que já faleceu em Amarante. A doce senhora até tenta justificar os atos violentos que sofreu do marido. “Era o jeito dele. Os homens daquele tempo, no interior do Maranhão, eram assim mesmo, ciumentos e machistas”.
Os atos de violência doméstica sofridos por Doninha, sua resistência e fuga, aconteceram no final dos anos 50, no interior do Maranhão, mas hoje, meio século depois, quando ouço os mesmos relatos sobre homens espancando, ameaçando e matando mulheres, eu pergunto: o que foi mesmo que mudou?
Por Jacqueline Heluy
