No Maranhão, tudo é possível — até vaca voando, jabuti subindo em árvore, pistola boiando na Baía de São Marcos, poste mijando em cachorro, óleo se misturando com água, bolsonarista apoiando petista, ladrão de galinha pegando 100 anos de cadeia e prefeito homicida andando solto por aí. Mas não é piada. É tragédia — e das grandes.
No domingo (6), durante uma vaquejada em Trizidela do Vale, o prefeito de Igarapé Grande, João Vitor Xavier (PDT), matou o policial militar Geidson Thiago dos Santos com cinco tiros pelas costas. O prefeito fugiu do local, se apresentou no dia seguinte na Delegacia de Presidente Dutra, alegou legítima defesa, confessou o crime e ainda admitiu que portava ilegalmente uma arma há dois anos. E o que aconteceu? Nada. Está livre, leve e solto. Pediu licença do cargo por “motivos psiquiátricos” e pode estar agora curtindo os Lençóis Maranhenses ou Copacabana. Enquanto isso, Geidson está debaixo de sete palmos, sem direito à defesa, sem laudo, sem habeas corpus. Condenado à prisão perpétua da morte.
Cinco dias depois, na quinta-feira (11), em Caxias, um criminoso identificado como Leandro da Silva Sousa matou o delegado Márcio Mendes Silveira e feriu dois outros policiais durante uma operação da Polícia Civil. O assassino, que morava em uma casa de taipa na zona rural, foi preso em menos de 48 horas. Sem habeas corpus, sem licença médica, sem nota de apoio de políticos poderosos. Está atrás das grades, como manda a lei.
Nos dois casos, agentes da Segurança Pública foram assassinados. Mas a diferença de tratamento escancara a desigualdade na aplicação da Justiça. De um lado, Leandro, pobre, sem padrinhos, preso. Do outro, João Vitor Xavier, prefeito, filho de prefeito, sobrinho de pré-candidato a deputado e aliado de senador da República, solto. Um matou e foi preso. O outro também matou, confessou — e está em casa.
O pedido de prisão preventiva contra João Vitor foi formalizado pela Polícia Civil no dia 8, mas até agora não foi acatado. O caso caiu nas mãos do desembargador Jorge Rachid Mubárack Maluf, que decidiu redistribuí-lo, alegando que o julgamento caberia a outra instância do TJ-MA. Enquanto isso, a Justiça virou pingue-pongue e o prefeito segue impune.
João Vitor ainda teve tempo de articular uma suposta saída política: protocolou na Câmara Municipal um pedido de licença de 125 dias, alegando “profundo abalo psicológico” e a condição de paciente bariátrico. No papel, diz que precisa de cuidados especiais. Mas a licença é estratégica: pode ser interrompida a qualquer momento, permitindo que ele volte ao cargo como se nada tivesse acontecido.
Já Leandro da Silva Sousa não teve as mesmas mordomias. Se não tivesse se entregado, talvez já estivesse morto — em mais um daqueles episódios que costumam terminar com a velha justificativa de que “o marginal reagiu à prisão”. Sua captura foi feita por equipes das forças de segurança que, desde a fuga, montaram uma verdadeira caçada ao criminoso.
Contra João Vitor Xavier, no entanto, o tratamento foi outro. Não houve operação, nem helicóptero, nem cerco policial. Nada que demonstrasse o mesmo empenho do Estado para capturar quem tirou a vida do soldado Geidson Thiago. Parece que, para o sistema de Justiça, a vida do policial militar não teve o mesmo peso. Não teve a mesma pressa. Nem a mesma indignação.
O certo é que Geidson Thiago e Márcio Mendes foram condenados — à morte. Nunca mais terão a liberdade. Nunca mais verão suas famílias. Nunca mais poderão sonhar.
Já João Vitor Xavier e Leandro da Silva, estejam presos ou soltos, seguem vivos. Podem dormir, comer, sorrir. E, quem sabe, até zombar da Justiça — que, mais uma vez, foi severa com o pobre e complacente com o poderoso.
O mais revoltante é perceber que, mesmo diante de tamanha gravidade, parte da classe política e da Justiça se movimenta para proteger o assassino confesso. A mesma rigidez que recai sobre um morador da roça não vale para um prefeito filiado ao PDT, sobrinho de um ex-presidente da Famem e aliado do senador Weverton Rocha.
Essa é a justiça seletiva, com sobrenome e CEP. Uma justiça que, em vez de ser cega, enxerga muito bem quem está no banco dos réus — e age conforme o peso do nome, do cargo e das alianças.
