A história da Rádio Timbira se confunde com a própria história do rádio no Maranhão. Aos 85 anos, a emissora chega a mais um aniversário carregando uma trajetória marcada pelo pioneirismo, pela formação de profissionais, pela valorização da cultura, pela cobertura de acontecimentos históricos e também por períodos de abandono e dificuldades político-administrativas.
Mais do que uma simples mudança de frequência, a passagem do AM para o FM representa mais um capítulo de uma história que começou quando o rádio ainda dava os primeiros passos no Brasil.
No início da década de 1920, o rádio iniciava uma nova era no país, ainda cercado de dificuldades para se consolidar. Foi somente em meados da década de 1930, com a autorização para a veiculação de publicidade, que o meio começou a ganhar estrutura e força.
No Maranhão, experiências pioneiras como as rádios Sociedade e Clube sobreviveram por poucos anos. As duas emissoras, ligadas aos empresários Jota Travassos e Nhozinho Santos, acabaram encerrando suas atividades diante das dificuldades de manutenção e financiamento.
Foi na década de 1940, período que ficou conhecido como a “Era de Ouro do Rádio”, que surgiu aquela que se tornaria a mais longeva emissora maranhense: a Rádio Timbira.
O nascimento da PRJ-9
A emissora foi criada durante o governo de Getúlio Vargas, a partir de solicitações do interventor federal no Maranhão, Paulo Ramos. Com apoio das autoridades federais, recebeu o prefixo PRJ-9 e passou a operar em onda média.
Para a montagem da estrutura técnica, a Philips enviou a São Luís o técnico mato-grossense Edson Browne de Araújo, personagem apontado na história da emissora como fundamental para a implantação da rádio no Estado.
A inauguração solene ocorreu em agosto de 1941. Na noite de sua estreia, o pronunciamento do interventor Paulo Ramos foi transmitido para dezenas de municípios maranhenses, revelando o alcance que a nova tecnologia já alcançava naquele período.
O jornal O Imparcial, então comandado no Maranhão por Assis Chateaubriand, registrou a chegada da primeira estação de radiodifusão do Estado, denominada PRJ-9.
A emissora posteriormente passou a ser chamada de Rádio Timbira e esteve ligada aos Diários Associados, conglomerado de comunicação comandado por Chateaubriand. O nome Timbira fazia referência aos povos indígenas de língua Jê presentes no Maranhão.
Uma rádio que ajudou a formar a comunicação maranhense
A influência da Timbira não ficou restrita ao rádio. Segundo o relato histórico que acompanha a trajetória da emissora, uma das primeiras experiências televisivas do Maranhão também teve como ponto de partida o auditório da Rádio Timbira, ainda na década de 1950, antes da implantação da TV Difusora, em 1963.
A ligação entre rádio e televisão ajuda a dimensionar a importância que a emissora teve na formação da comunicação maranhense. Ao longo das décadas, seus microfones registraram acontecimentos políticos, sociais, esportivos e culturais que marcaram diferentes gerações.
Ditadura e democracia, campeonatos esportivos, manifestações culturais, música e acontecimentos do cotidiano passaram pelas ondas da Timbira.
Como emissora estatal, sua missão também se diferenciava da lógica comercial predominante no rádio brasileiro. A preocupação com a audiência e com a publicidade convivia com uma função institucional e social vinculada ao poder público.
Essa característica, entretanto, sempre colocou a emissora diante de um dilema: preservar sua função pública sem permitir que mudanças políticas e administrativas comprometessem sua independência, sua estrutura e sua capacidade de comunicação com a sociedade.
Os anos de abandono e o risco do silêncio
A história da Timbira também é marcada por períodos em que sua importância não foi acompanhada pelos investimentos necessários para mantê-la competitiva.
Um dos momentos mais críticos ocorreu na década de 1990, durante o governo Roseana Sarney. Em 1995, a autarquia Rádio Timbira foi extinta, sob a justificativa de que os prejuízos administrativos eram superiores às receitas.
A decisão não significou, porém, o desaparecimento imediato da emissora.
Como a concessão era federal, as transmissões continuaram. Entre 1995 e 2007, entretanto, a rádio passou por um período de funcionamento precário. A estrutura foi reduzida e a emissora chegou a operar em uma sala na região da Ceasa, no Cohafuma, com potência bastante limitada.
Para uma rádio que já havia alcançado dezenas de municípios e formado gerações de profissionais, a situação representava praticamente um apagão de sua presença no dial.
O episódio se tornou uma das páginas mais difíceis de sua história: uma emissora pública com décadas de relevância chegou a enfrentar condições que ameaçavam sua própria capacidade de ser ouvida.
A tentativa de reconstrução
A recuperação começou a ganhar força posteriormente.
Em 2009, sob a direção de Juraci Veira Filho a emissora voltou a apresentar uma programação mais eclética, resurgindo das cinzas e voltando a ser ouvida por milhares de maranhenses, inclusive fazendo a cobertura In Loco da Copa do Mundo em 2014. A partir de 2015, durante a direção do jornalista e comunicador bequimãoense Robson Paz, já no governo Flávio Dino, a Timbira passou por uma nova fase de reestruturação, com aquisição de novo transmissor, novos equipamentos e modernização dos estúdios.
Em 2017, a emissora avançou ainda mais na remodelação de sua programação e na presença digital. Novas atrações foram incorporadas e a interação com os ouvintes ganhou espaço.
A Timbira passou a utilizar site, YouTube, redes sociais e aplicativos para ampliar sua presença no mundo digital. Era uma resposta a uma mudança inevitável: o rádio havia deixado de ser apenas uma transmissão sonora.
Do AM ao FM
Depois de 83 anos operando em amplitude modulada (AM), a Rádio Timbira migrou para o FM em 2024, passando da antiga frequência de AM para os 95,5 MHZ.
A mudança ocorreu dentro do processo nacional de adaptação das outorgas de AM para FM iniciado por decreto federal em 2013 no governo Dilma, com posteriores orientações técnicas do Ministério das Comunicações e da Anatel.
A migração trouxe uma nova exigência.
Não bastava mudar o transmissor ou ocupar uma nova faixa do dial. Era necessário repensar a forma de fazer rádio. A convergência das mídias transformou o meio em uma plataforma múltipla, na qual áudio, vídeo, texto e redes sociais passaram a funcionar simultaneamente.
A Timbira, portanto, precisou mudar de pele mais uma vez.
O que antes era essencialmente um canal de rádio passou a integrar uma estrutura multiplataforma. Uma transformação que representa, ao mesmo tempo, oportunidade e desafio.
85 anos de resistência
A trajetória da Timbira pode ser definida por ciclos.
Houve períodos de ouro, quando a emissora reunia grandes profissionais, departamentos estruturados e forte presença entre os ouvintes. Também houve momentos de apagão, provocados por dificuldades políticas, administrativas e estruturais.
Essa alternância entre prestígio e abandono acompanha boa parte dos 85 anos da emissora.
Por isso, celebrar a idade da Timbira significa também reconhecer sua capacidade de resistência.
A canção Alô, Timbira, do maranhense Gildomar Marinho, traduz parte dessa relação afetiva construída entre a emissora e seus ouvintes ao longo das décadas.
Hoje, a rádio não está mais restrita às ondas do FM. Pela internet e pelas redes sociais, pode alcançar os 217 municípios maranhenses, outros estados brasileiros e até ouvintes fora do país.
Mas alcance potencial não significa, necessariamente, audiência efetiva.
E aqui está o principal desafio da Timbira no presente.
O desafio de reconquistar o ouvinte
A migração para o FM trouxe melhor qualidade técnica e novas possibilidades de comunicação. A estrutura física também foi modernizada e a emissora passou a contar com estúdios capazes de produzir conteúdos de rádio e televisão.
Mas tecnologia, por si só, não garante audiência.
Mesmo depois da migração para o FM, a programação atual ainda não conseguiu convencer parte significativa do público maranhense. A emissora enfrenta dificuldades para ocupar uma posição de destaque na audiência.
Esse é o paradoxo dos 85 anos da Timbira.
Uma rádio com uma história gigantesca, que ajudou a formar profissionais e participou de momentos importantes da vida do Maranhão, ainda precisa descobrir como transformar esse patrimônio histórico em audiência no presente.
O passado é uma vantagem, mas não pode ser a única estratégia.
O ouvinte mudou. A maneira de consumir informação mudou. A concorrência aumentou. Rádio, televisão, YouTube, podcasts, Instagram, TikTok e outras plataformas disputam hoje a mesma atenção.
Para continuar relevante, a Timbira precisa fazer aquilo que já fez várias vezes ao longo de sua história: adaptar-se.
Uma verdadeira escola de profissionais
Talvez um dos maiores patrimônios da Rádio Timbira sejam os profissionais que passaram por seus estúdios.
Ao longo de sua história, a emissora reuniu nomes importantes da radiofonia maranhense, como Walberth Ramos Martins, o Canarinho; Ruy Dourado; Djard Ramos Martins; José Salim; professor João Ferreira, responsável pelo programa Timbira Internacional, transmitido em inglês e português; Magno Figueiredo; Edivan Fonseca; Fernando Júnior; Jairo Rodrigues; Haroldo Silva; José Carlos de Assis; Murilo Costa Ferreira; Raimundo Coutinho; Concita Castro; Karlos Roger; Helberth Teixeira; Nonato Alves; Alberto Farias; Fernando Leite; José Santos; Anacleto Araújo; José Carlos Teixeira; Jalber Pereira; Gilberto Lima; Hélio de Moraes Rêgo; Léo Felipe; Juraci Vieira Filho; João Ricardo; Afonso Diniz; Laércio Júnior; Bruno Alves; Renato Souza Júnior; Solon Vieira; João Filho; Marcelo Júnior; Carloto Júnior; Gil Porto, Antônio Vieira; Josué Furtado; Honorino Sousa; Pedro Moura Lopes; Ronald Pimenta; Silvan Alves e Lauro Leite, que hoje dá nome ao principal estúdio da emissora.
A geração atual também reúne profissionais que mantêm a programação no ar, entre eles Robson Júnior, o mestre da comunicação moderna e contemporânea, Dany Kline, Mônica Moreira Lima, José Raimundo Rodrigues, Franck Matos, Deni Silva, Welligton Silva, Noel Soares, Edivaldo Oliveira, Márcia Figueiredo, Roberto Ramos, Pedro Borges, Antônio Carlos Macarrão, Maria Espíndola, Samira Maciel, Léo Ribeiro, Mariano Rosas, Ana Guimarães, Daniel Amorim, José Reinaldo Martins, Amanda Melo, Duda Martins, Valéria Carvalho, Celina Mendes, Thiago Soares, Zema Ribeiro e Geraldo Castro, entre outros.
São gerações que ajudaram a transformar a Timbira em uma espécie de escola da comunicação maranhense.
Uma história também contada pelos endereços
A própria trajetória física da emissora revela suas transformações. A Timbira já funcionou na Rua Grande, no antigo prédio do Banco do Estado do Maranhão, na Rua Rio Branco, Rura do Correia no bairro de Fátima, em um prédio construído durante o governo João Castelo para sediar a emissora, na região da Ceasa, no Cohafuma, e na Avenida Beira-Mar.
Atualmente, está instalada no Edifício Cesáreo, na Avenida Senador Vitorino Freire, no Centro de São Luís, onde também funciona a Secretaria de Comunicação do Estado.
As novas instalações contam com estúdios modernos de rádio e televisão, permitindo a produção de conteúdos para diferentes plataformas.
A voz do Maranhão precisa voltar a ecoar
A Rádio Timbira chega aos 85 anos vinculada ao Governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Comunicação, levando ao ar informação, música e conteúdos voltados à valorização da cultura maranhense e brasileira.
O atual processo de modernização contou com investimentos durante a gestão do governador Carlos Brandão e do secretário Sérgio Macedo, jornalista que já esteve à frente da emissora por várias vezes, inclusive na última gestão de Roseana Sarney, conforme registrado na trajetória recente da emissora.
Mas o aniversário de 85 anos não deve servir apenas para celebrar.
Também deve servir para refletir.
Uma emissora pública não pode depender exclusivamente da memória que construiu. Precisa dialogar com o presente, conquistar novos ouvintes e encontrar uma linguagem capaz de disputar espaço em um ambiente de comunicação completamente diferente daquele em que nasceu.
A Timbira já sobreviveu ao desaparecimento das primeiras rádios maranhenses, atravessou governos, mudanças tecnológicas, períodos de sucateamento e até o risco de deixar de existir.
Sobreviveu ao AM e chegou ao FM.
Agora precisa sobreviver a um desafio ainda mais complexo: voltar a ser ouvida por uma nova geração de maranhenses.
Aos 85 anos, a velha senhora do rádio maranhense continua com o microfone aberto.
A pergunta é se o Maranhão continuará disposto a escutá-la.
Fonte: Geraldo Castro e O Imparcial
