Canetada de Juscelino Filho teria deixado caminho livre para expansão da TV Difusora, ligada a Willer Tomaz
Mudança nas regras de distribuição de canais teria favorecido a emissora maranhense, que se classificou para retransmitir sua programação em outros 16 Estados; Ministério das Comunicações afirma que adotou critérios técnicos.

Uma mudança nas regras do Ministério das Comunicações, implementada durante a gestão do então ministro Juscelino Filho (União-MA), teria aberto caminho para a expansão nacional da TV Difusora, emissora sediada em São Luís e ligada ao advogado e empresário Willer Tomaz de Souza, que foi alvo de uma operação da Polícia Federal nesta terça-feira (4).
A empresa teria se classificado para retransmitir a programação da emissora maranhense em outros 16 Estados, incluindo 11 capitais. A expansão representa um movimento de grande impacto no mercado de radiodifusão e pode ampliar significativamente o alcance comercial e a influência do grupo de comunicação.
O episódio ganha ainda mais repercussão diante das relações políticas atribuídas a Willer Tomaz, descrito no meio político como um advogado de trânsito entre diferentes grupos de poder. Ele mantém relações profissionais e políticas apontadas pela imprensa tanto com integrantes da oposição quanto com nomes ligados à base do governo Lula, entre eles o senador Weverton Rocha (PDT-MA). A Folha, autora desta reportagem por exemplo, conta que já registrou a proximidade de Tomaz com Flávio Bolsonaro e com integrantes da base governista.
Regra mudou durante gestão de Juscelino
A questão central está na mudança dos critérios utilizados pelo Ministério das Comunicações para a escolha de emissoras habilitadas a retransmitir sinais de televisão.
Segundo informações divulgadas sobre o processo, a regra passou a considerar a antiguidade da concessão como fator de vantagem na disputa. Na prática, a TV Difusora, cuja outorga original para São Luís remonta a 1962, passou a ter uma posição privilegiada diante de concorrentes com concessões mais recentes.
Documentos oficiais do próprio Ministério das Comunicações confirmam que a Rádio e TV Difusora do Maranhão recebeu diversas autorizações para retransmissão durante a gestão de Juscelino Filho. Entre elas estão autorizações para municípios maranhenses como Fortaleza dos Nogueiras, Duque Bacelar, Fernando Falcão, Lago dos Rodrigues e Capinzal do Norte.
A outorga original da emissora, de 1962, também aparece expressamente nos atos oficiais que autorizaram as retransmissões. É justamente aí que surge a principal dúvida: a mudança de critério foi apenas uma decisão técnica e geral do Ministério ou acabou criando, na prática, uma vantagem específica para a TV Difusora por ser uma das emissoras mais antigas do país?
O Ministério das Comunicações sustenta que o edital e a distribuição dos canais obedeceram a critérios técnicos. A empresa, por sua vez, não atribui sua expansão a qualquer favorecimento político.
Expansão pode multiplicar valor do negócio
A ampliação da área de cobertura pode representar um salto expressivo no valor comercial da TV Difusora. Analistas do mercado de radiodifusão avaliam que uma operação com presença em dezenas de localidades e acesso a mercados de outros estados pode aumentar significativamente o potencial de faturamento e publicidade de uma emissora.
O que chama atenção, portanto, não é apenas o crescimento da TV Difusora, mas o momento em que ele ocorre e as circunstâncias que permitiram a expansão.
De um lado, existe uma emissora tradicional, com concessão originária de 1962, que passou a contar com uma regra que valoriza justamente a antiguidade da outorga. Do outro, está um empresário com trânsito entre diferentes grupos políticos e que, agora, voltou ao centro das atenções por causa de uma investigação da Polícia Federal.
Willer Tomaz é alvo da Polícia Federal
Nesta terça-feira (4), Willer Tomaz foi alvo de mandado de busca e apreensão em nova fase da Operação Sem Desconto, que investiga suspeitas relacionadas a fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A investigação apura possíveis mecanismos de lavagem de dinheiro e movimentações financeiras envolvendo pessoas e empresas ligadas ao caso. Documentos da CPMI do INSS também registraram operações financeiras envolvendo Tomaz e pessoas relacionadas ao núcleo investigado.
É importante ressaltar que ser alvo de busca e apreensão ou estar sob investigação não significa condenação nem comprovação de crime. O próprio advogado já negou irregularidades e afirmou, em manifestações anteriores, que suas movimentações financeiras são lícitas e declaradas.
A relação de Tomaz com o senador Weverton Rocha também é objeto de questionamentos e já apareceu em documentos e reportagens relacionados às investigações do INSS. Weverton, por sua vez, contesta acusações que o vinculam ao esquema.
A pergunta que permanece
O ponto que permanece em aberto é se a mudança promovida pelo Ministério das Comunicações foi simplesmente uma alteração administrativa destinada a estabelecer critérios objetivos para a distribuição de canais ou se, ainda que indiretamente, acabou produzindo um benefício extraordinário para uma empresa específica.
A resposta oficial é que houve apenas aplicação de critérios técnicos.
Mas a coincidência entre a alteração das regras, a antiguidade da concessão da TV Difusora, a posterior classificação da emissora para ampliar sua área de retransmissão e as relações políticas atribuídas ao empresário inevitavelmente coloca o episódio sob os holofotes.
No mundo da política e dos negócios, coincidências podem até acontecer. Quando envolvem concessões públicas, milhões em potencial de publicidade e empresários com trânsito em diferentes grupos de poder, porém, é natural que surjam perguntas — e cabe às autoridades e aos órgãos de controle apresentar respostas convincentes.
Outro ponto que merece esclarecimento é a estrutura societária da empresa. Segundo os dados na Receita Federal, a TV Difusora aparece formalmente registrada em nome de Lidia Maria Figueiredo Mazelli e Christine Tomaz de Souza, irmã de Willer Tomaz. A composição societária, por si só, não comprova irregularidade, mas é uma informação relevante para compreender quem formalmente controla a empresa e quem efetivamente exerce sua gestão.
No fim das contas, a discussão não é apenas sobre televisão. É sobre concessões públicas, regras de mercado, influência política e quem realmente se beneficia quando uma simples mudança administrativa pode transformar uma emissora regional em uma operação com alcance nacional.
Fonte: Folha



