MARANHÃO

Ex-presidiário e beneficiário do Bolsa Família aparece como comprador de empresas com R$ 177 milhões em dívidas no Maranhão

Caso levanta suspeitas de fraude societária e uso de “laranjas” em grupo do transporte público de São Luís.

A divulgação de uma reportagem sobre um suposto beneficiário do Bolsa Família que teria adquirido empresas com dívida estimada em R$ 177 milhões levou autoridades do Maranhão a iniciarem investigações sobre possíveis irregularidades na venda de um grupo empresarial que atua no transporte público de São Luís.

O caso veio à tona por meio de reportagem publicada pelo jornalista Tácio Lorran no portal Metrópoles e confirmada pelo portal G7, apontando indícios de fraude societária na negociação envolvendo o Consórcio VL São Luís.

O consórcio — formado também pelas empresas Expresso Rei de França e Expresso Grapiúna — entrou com pedido de recuperação judicial em novembro de 2025, acumulando uma dívida de pelo menos R$ 177 milhões. Apesar do passivo elevado, o grupo teria sido vendido no fim de janeiro deste ano por R$ 3 milhões a Willame Alves dos Santos, de 26 anos, que passou a figurar como sócio-administrador.

Segundo registros, além do consórcio, as demais empresas do grupo também foram transferidas para o nome de Willame, que reside na periferia de Fortaleza e é beneficiário do programa Bolsa Família, recebendo cerca de R$ 600 mensais.

A negociação foi conduzida por Deborah Piorski Ferreira, filha do empresário Pedro Paulo Pinheiro Ferreira, conhecido como “PP”, figura tradicional no setor de transporte rodoviário em São Luís e apontado como o verdadeiro controlador do grupo, embora não conste formalmente no quadro societário atual.

Até janeiro de 2024, PP aparecia como sócio e administrador das empresas agora em recuperação judicial. A mudança repentina na composição societária passou a ser questionada judicialmente.

As suspeitas foram formalizadas em ação civil pública movida pela empresa Vamos Locação de Caminhões, Máquinas e Equipamentos, uma das credoras do grupo. A empresa pede o bloqueio de recursos e aponta indícios de fraude na transferência das cotas.

Ao analisar o caso, o juiz Douglas Martins, da Vara de Interesses Difusos e Coletivos de São Luís, classificou os fatos como “gravíssimos” e convocou uma reunião emergencial com as partes envolvidas. Durante o encontro, segundo ata, o próprio gerente do consórcio teria admitido que o empresário PP continua sendo o gestor de fato das empresas, apesar de não constar oficialmente como sócio.

Para o magistrado, há indícios claros de “fraude societária, blindagem patrimonial e confusão na gestão”, com possível uso de interpostas pessoas — prática conhecida como utilização de “laranjas”.

Diante disso, foi determinado o bloqueio de até R$ 50 milhões em contas vinculadas aos envolvidos, com prazo de 15 dias para manifestação.

O Ministério Público também solicitou a desconsideração da personalidade jurídica das empresas, medida que permite atingir diretamente os bens de pessoas físicas e jurídicas ligadas ao caso. O objetivo, segundo o órgão, é garantir eventual reparação por danos causados aos usuários do sistema de transporte público.

Além das inconsistências financeiras — como a suposta compra à vista de cotas milionárias por alguém sem capacidade econômica compatível —, o histórico de Willame Alves também chama atenção. Ele possui registros na polícia do Ceará e, recentemente, foi preso em flagrante por suspeita de aplicar golpes com falsos comprovantes de Pix. Em depoimento, afirmou ser usuário de drogas há cerca de cinco anos.

A ação judicial sustenta que Willame teria sido colocado como sócio formal para assumir responsabilidades jurídicas e financeiras, funcionando como “escudo” para os verdadeiros controladores do grupo diante do agravamento da crise e do risco de condenações.

O cenário financeiro das empresas já era crítico desde 2025. De acordo com o Ministério Público, trabalhadores chegaram a paralisar integralmente as atividades em novembro daquele ano, cobrando salários atrasados e benefícios não pagos.

Na defesa apresentada no pedido de recuperação judicial, o grupo atribui a crise à falta de reajuste adequado nas tarifas do transporte público entre 2022 e 2025, além de bloqueios judiciais, penhoras de veículos e inadimplência generalizada.

Procurados, representantes do consórcio e da defesa jurídica não se manifestaram até o fechamento desta matéria. O espaço permanece aberto para posicionamentos.

Fonte: Metropoles

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