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A incoerência de Weverton Rocha: do discurso contra o filhotismo na política à defesa do projeto familiar de Carlos Brandão

Senador pedetista, que sempre se posicionou contra o filhotismo político no Maranhão, agora atua como defensor do modelo praticado pelo governador Carlos Brandão

Desde que ingressou na política em 2010, o senador Weverton Rocha (PDT) construiu sua identidade pública com um discurso central: o combate ao filhotismo e aos arranjos familiares que historicamente dominaram o poder no Maranhão. Esse discurso foi repetido em 2014, quando se reelegeu deputado federal, e em 2018, quando, apoiado por Flávio Dino, alcançou o Senado sob a bandeira de renovação e enfrentamento ao grupo Sarney.

O que chama atenção agora é que o pedetista parece ter decidido enterrar a própria narrativa. Entre episódios políticos conturbados e o temor crescente de não conseguir a reeleição em 2026, Weverton virou o jogo e passou a defender justamente aquilo que passou 15 anos condenando: projeto de poder familiar.

Aliados envolvidos em filhotismo e parentesco político

Apesar de criticar publicamente a prática, Weverton sempre conviveu politicamente com grupos familiares estruturados. Um exemplo é a família Xavier, base fiel do senador: Erlânio Xavier e Júnior Xavier — este último, prefeito do município de Bernardo do Mearim — e João Victor Xavier, prefeito de Igarapé Grande, que se envolveu recentemente na morte de um policial militar, executando o PM com seis tiros pelas costas e permanece em liberdade. João Victor é filho de Júnior Xavier e sobrinho de Erlânio, todos aliados diretos do senador pedetista.

Se antes Weverton Rocha bradava contra famílias inteiras controlando prefeituras, câmaras, assembleia legislativas, palácios e repartições, agora evita tocar no assunto e de quebra defende o projeto familiar de poder, simplesmente para agradar Iracema Vale e o governador Carlos Brandão.

Da oposição ferrenha a Brandão à defesa do “projeto familiar” do Palácio dos Leões

O ponto mais sensível dessa visão regressiva é a mudança brusca de posicionamento em relação ao governador Carlos Brandão. Em 2022, Weverton foi adversário direto do atual governador. Chegou a acusar Brandão de usar a máquina pública para favorecer parentes, questionou a influência dos irmãos e criticou o que chamou de “projeto de perpetuação familiar”.

Em um de seus discursos mais duros naquele período eleitoral, durante evento no Estádio Nhozinho Santos, diante de mais de 12 mil pessoas, Weverton afirmou: “O Maranhão não pode substituir um grupo familiar por outro. Não podemos trocar a hegemonia da família Sarney pela hegemonia da família Brandão”.

Chegou também a dizer: “O povo está cansado de coronelismo moderno, onde irmãos, sobrinhos e primos ocupam postos-chave e decidem tudo”. Essas declarações circularam amplamente nas redes sociais durante a campanha de 2022.

Agora, porém, o senador se apresenta ao lado de Brandão como defensor desse mesmo projeto que antes tachava de coronelista. Em diversos eventos recentes, citados por aliados governistas, Weverton tem feito discursos de alinhamento, elogiando a gestão e “passando pano” para a ascendência política da família Brandão. A mudança surpreendeu até eleitores históricos do pedetista.

Constrangimento público ao lado de Iracema Vale

Num dos episódios mais simbólicos, durante evento ao lado da presidente da Assembleia Legislativa, Iracema Vale — que emplacou o filho Vinícius Vale como prefeito de Barreirinhas e o outro filho, Herlon Júnior, como vice-prefeito de Belágua — Weverton fez declarações defendendo Brandão e elogiando seu “compromisso com o Maranhão”.

Segundo aliados da própria Iracema, Weverton buscava “fazer média” com a deputada para garantir apoio político, mesmo que isso significasse contrariar tudo que já defendeu sobre filhotismo na política.

Ataques à família Sarney permanecem — mas agora soam seletivos

Curiosamente, hoje Weverton Rocha elogia projeto familiar do governador Carlos Brandão, mas há menos de um ano atacava a família Sarney com declarações, insinuando que Carlos Brandão havia nomeados aliados de José Sarney: “O Maranhão já sofreu demais nas mãos de uma oligarquia que pensa ser dona do estado. Não podemos permitir que interesses antigos voltem a ditar os rumos do Maranhão”.

As falas, que antes se conectavam a um discurso amplo contra estruturas familiares no poder, agora soam seletivas, já que Weverton silencia quando se trata dos Brandão — justamente o grupo com quem passou a dividir palanque e que abrigou as viúvas do grupo Sarney.

A sobrevivência política como justificativa para tudo

Temendo perder musculatura eleitoral para 2026, Weverton Rocha tem recorrido a todos os movimentos possíveis. Aliados próximos comentam, reservadamente, que o senador “faz o que for preciso para sobreviver politicamente”.

A sensação é que Weverton, antes crítico duro das velhas práticas, agora aceita dormir com inimigos de ontem, beber água na cuia com cascavel, caminhar descalço sobre brasas ou recuar de qualquer discurso — tudo para não descer um degrau no tabuleiro político.

A verdade é que o senador parece disposto a tudo. Inclusive nada.

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