A hipocrisia do Sinrural bolsonarista em Imperatriz-MA e a “teta” da Lei Rouanet
Artigo escrito e publicado por João Filho - Jornalista, radialista e pesquisador sobre o rádio
O moralismo seletivo de parte da direita bolsonarista volta a dar o ar da graça — desta vez em Imperatriz, no Maranhão. O Sindicato Rural da cidade, presidido por um autodeclarado bolsonarista, protocolou e teve aprovado um pedido para captar quase R$ 1 milhão via Lei Rouanet. Sim, aquela mesma Lei Rouanet que o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores passaram anos demonizando como “mamata” e “esquema de artistas de esquerda”.
O pedido foi autorizado pelo Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic), permitindo ao Sinrural captar até R$ 900.900 para o projeto “Raízes Culturais do Campo”, voltado à programação da tradicional Exposição Agropecuária de Imperatriz (Expoimp) em 2025. O curioso é que o mesmo sindicato, em 2022, cancelou um show do cantor João Gomes após ele, no calor do Rock in Rio, liderar um coro de protesto contra Bolsonaro. À época, o cancelamento foi justificado sob a alegação de “falta de respeito ao ex-presidente”.
Aparentemente, a moral bolsonarista tem um preço — e ele pode ser cobrado com nota fiscal.
Sob o comando de Glen Anderson Maia de Oliveira, um goiano eleito presidente do Sinrural em 2024, o sindicato tenta agora acessar justamente o benefício cultural que seus pares tanto atacam. Não se trata apenas de incoerência: é hipocrisia pura, daquelas que tentam se esconder atrás de discursos inflamados contra o que chamam de “esquerdismo cultural”, mas que na prática se aproveitam do mesmo sistema quando convém.
Não é novidade. Durante o governo Bolsonaro, a demonização da Lei Rouanet foi uma estratégia política para atacar artistas críticos ao governo e reforçar a retórica anti-intelectual que marcou a gestão. A narrativa era simples: artistas estariam “mamando” em recursos públicos sem produzir nada de valor. O termo “mamata” virou bordão, alimentando o ódio e a desinformação nas redes sociais. Agora, os mesmos que vociferavam contra o mecanismo cultural parecem ansiosos para “mamar” na tal “teta da vaca Rouanet”.
A Lei Rouanet, vale lembrar, não é repasse direto de verba pública. Ela permite que empresas e cidadãos destinem parte do seu Imposto de Renda a projetos culturais previamente aprovados. É um instrumento legítimo e eficiente de fomento à cultura — desde que usado com transparência e responsabilidade. O problema não é o uso da lei, mas o uso hipócrita dela.
É legítimo o Sinrural buscar financiamento para promover atividades culturais? Sem dúvida. O que fere a ética e a coerência é a tentativa de lucrar politicamente ao demonizar o instrumento e, depois, correr para usufruí-lo silenciosamente quando se torna conveniente. Quem cancela shows por posicionamentos políticos e depois busca dinheiro da cultura deveria, no mínimo, repensar seus discursos ou assumir publicamente que errou.
Não se pode exigir respeito se não se pratica a honestidade intelectual.
A cultura não pode — e não deve — ser tratada como trincheira ideológica. Tampouco pode ser sequestrada por moralismos de ocasião, daqueles que mudam de tom conforme o vento. O episódio em Imperatriz é mais um lembrete de que, no Brasil, o problema raramente é a lei. O problema costuma estar em quem a manipula, seja para aparecer ou para lucrar — às vezes, os dois ao mesmo tempo.



