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Após ser flagrado em balada em Fernando de Noronha, governador Brandão inventa férias retroativas de quatro dias ao sobrinho Orleans Brandão

Imagens do secretário estadual curtindo a noite no arquipélago pernambucano viralizaram nas redes sociais enquanto o Maranhão enfrentava uma onda de violência.

O secretário de Assuntos Municipalistas do Maranhão, Orleans Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão, foi flagrado em vídeo curtindo uma balada em Fernando de Noronha (PE) durante o que seria um dia normal de expediente. O registro viralizou em grupos de WhatsApp e nas redes sociais, gerando críticas e questionamentos sobre a conduta de membros do governo estadual.

Enquanto o Maranhão vivia dias de tensão, com facções criminosas promovendo ataques e disseminando medo na Grande Ilha de São Luís, Orleans Brandão aproveitava o lazer fora do estado. A repercussão das imagens levou o Palácio dos Leões a publicar, em caráter emergencial, uma portaria que concedia quatro dias de férias retroativas ao secretário — justamente no período em que ele já se encontrava em Fernando de Noronha.

O documento, assinado pelo governador Carlos Brandão e pelo secretário-chefe da Casa Civil, Sebastião Madeira, chamou atenção por seu caráter incomum. Para analistas políticos e juristas ouvidos pelo G7, o ato teria como objetivo dar aparência de legalidade a uma ausência injustificada, transformando uma viagem particular em um descanso oficial.

A manobra, além de politicamente desgastante, pode configurar violação da legalidade administrativa. A Lei nº 6.107/1994, que rege o funcionalismo público estadual, estabelece trinta dias de férias anuais, com possibilidade de acumulação apenas em casos excepcionais e mediante justificativa de interesse público. O texto não prevê concessão retroativa nem o fracionamento em períodos inferiores a dez dias.

Para servidores comuns, ausências injustificadas podem resultar em advertência, desconto salarial e até suspensão. No entanto, quando o caso envolve um parente do governador, o tratamento parece ser outro.

O episódio ganha ainda mais repercussão porque outro integrante da família Brandão, o secretário Vinícius Ferro — casado com uma sobrinha do governador — também estaria em Fernando de Noronha no mesmo período. As imagens de lazer, contrastando com a crise da segurança pública no estado, foram vistas por muitos maranhenses como uma afronta à população, que enfrenta dias de medo e incerteza.

Enquanto escolas suspendem aulas e comerciantes fecham as portas por temor da violência, o governo se mobiliza não para conter a crise, mas para proteger um parente exposto por suas próprias escolhas. A diferença de tratamento escancara o que se tornou marca registrada da atual gestão: o uso do Estado como escudo familiar.

No Maranhão de Brandão, as leis parecem ter dois pesos e duas medidas — uma para o cidadão comum, outra para os integrantes do clã político no poder. O resultado é o mesmo: descrédito institucional e enfraquecimento da confiança pública.

A concessão retroativa de férias não é apenas uma irregularidade administrativa. É um símbolo. Representa um governo que confunde o público com o privado, e que utiliza o Diário Oficial não para servir à transparência, mas para produzir justificativas convenientes.

Ao assinar o ato, Carlos Brandão não apenas validou quatro dias de descanso do sobrinho. Assinou também um novo capítulo da personalização do poder, em que o Estado se dobra aos interesses familiares e o interesse público fica, mais uma vez, em segundo plano.

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