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Família Curió é alvo de investigação do Gaeco por suposto esquema de corrupção em Turilândia (MA)

Segundo o Ministério Público, Paulo Curió, Marcel Curió e Domingos Curió são apontados como integrantes de uma organização criminosa que teria causado prejuízo milionário aos cofres públicos.

A situação política e administrativa do município de Turilândia, na Baixada Maranhense, tornou-se ainda mais grave após decisão da desembargadora Graça Amorim, do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA), que determinou a prisão preventiva de dez pessoas e a prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica de outras 11, no âmbito da segunda fase da Operação Tântalo deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas) do Ministério Público do Maranhão.

A operação foi realizada no último dia 22 de dezembro e investiga um suposto esquema de organização criminosa, corrupção, fraude em licitações, lavagem de dinheiro e desvio sistemático de recursos públicos no município.

Entre os principais alvos estão o prefeito de Turilândia, José Paulo Dantas Silva Neto, conhecido como Paulo Curió (União Brasil), e sua esposa, a primeira-dama Eva Maria Oliveira Cutrim Dantas, ambos presos no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís. Também figuram entre os investigados a vice-prefeita Tanya Mendes (PRD) e seu marido; a ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima e o esposo; além dos 11 vereadores do município, que, segundo o Ministério Público, teriam recebido propina em troca de apoio político e omissão na fiscalização das contas do Executivo.

A decisão judicial também determinou o afastamento cautelar das funções públicas do prefeito, da vice-prefeita, da pregoeira Clementina de Jesus Pinheiro Oliveira e da chefe do Setor de Compras, Gerusa de Fátima Nogueira Lopes. O contador Wandson Jonath Barros, apontado como operador financeiro do esquema, teve suas atividades econômicas suspensas.

A Justiça autorizou ainda o bloqueio de R$ 22,3 milhões nas contas dos investigados, além da suspensão de pagamentos e da proibição de novas contratações com as empresas sob investigação. Ao todo, a Operação Tântalo II cumpriu 51 mandados de busca e apreensão e teve como alvo dez empresas supostamente ligadas ao esquema. Durante a operação, foram apreendidos quase R$ 2 milhões em dinheiro.

Segundo o Ministério Público, o esquema teria causado prejuízo superior a R$ 56 milhões aos cofres de Turilândia. As irregularidades teriam começado em 2021 e continuado mesmo após a deflagração da primeira fase da operação, em fevereiro deste ano. De acordo com o Gaeco, a fraude funcionava por meio da chamada “venda de notas fiscais”, em que empresas eram contratadas pela prefeitura, emitiam notas sem executar os serviços e devolviam entre 82% e 90% dos valores aos integrantes da organização criminosa, principalmente ao prefeito Paulo Curió.

Turilândia possui cerca de 31,6 mil habitantes e apresenta IDH de 0,536, considerado muito baixo pelo IBGE. O município depende quase integralmente de transferências da União e do Estado (97,24%). Mais de 40% da população é beneficiária do Bolsa Família, e a cidade conta com apenas duas escolas de ensino médio, nenhum hospital e saneamento básico que atende apenas 2% da população, dados destacados pela magistrada na decisão judicial.

Núcleo familiar

De acordo com o Ministério Público, Paulo Curió é apontado como o líder do suposto esquema criminoso, sendo o principal destinatário dos recursos desviados. Ele teria utilizado sua posição de ordenador de despesas para direcionar licitações, cooptar agentes públicos e garantir apoio político.

Ainda segundo o Gaeco, em menos de cinco anos, o prefeito teria acumulado patrimônio incompatível com sua renda declarada. Entre os bens citados estão uma casa no bairro Calhau, em São Luís, avaliada em R$ 3,7 milhões; uma residência em Turilândia, de R$ 1,6 milhão; um imóvel em condomínio de luxo em Barreirinhas; e um apartamento no Edifício Al Mare, na capital, avaliado em R$ 3,1 milhões, registrado em nome de terceiro.

A esposa do prefeito, Eva Curió, também teve a prisão preventiva decretada. Conforme a investigação, ela seria responsável por gerenciar contas da prefeitura e da Câmara Municipal, operacionalizar transferências ilícitas e articular a aquisição de imóveis para lavagem de dinheiro. Treze dias após a primeira fase da Operação Tântalo, o casal teria constituído a empresa Paraíso Verde Agropecuária Ltda, com capital social de R$ 350 mil, supostamente para dar continuidade ao esquema.

O irmão do prefeito, Marcel Everton Dantas Silva, conhecido como Marcel Curió, também é citado na investigação. Ex-prefeito de Governador Nunes Freire, ele responde a ação penal por organização criminosa e lavagem de dinheiro naquele município, com prejuízo apurado de R$ 31,8 milhões. Segundo o Ministério Público, após a derrota eleitoral de Marcel em 2020, a família teria transferido o núcleo do esquema para Turilândia, onde Paulo Curió venceu as eleições.

Outros familiares também aparecem como beneficiários. O pai do prefeito, Domingos Sávio Fonseca Silva, o Domingos Curió, teria participado da execução parcial de obras para simular o cumprimento de contratos. A irmã, Taily de Jesus Everton Silva Amorim, teria tido mensalidades escolares pagas com recursos desviados, enquanto a mãe, Angela Maria Everton, recebeu uma transferência de R$ 15 mil, supostamente determinada pelo próprio prefeito.

Quem são os 21 alvos de prisão

Prisão preventiva (10 pessoas)

José Paulo Dantas Silva Neto, o “Paulo Curió” (Prefeito)

É apontado como líder máximo da organização criminosa instalada na Prefeitura de Turilândia. Na condição de ordenador de despesas, teria orquestrado fraudes licitatórias, direcionado certames e cooptado agentes políticos. As investigações indicam que ele acumulou patrimônio superior a R$ 10 milhões em menos de cinco anos, incompatível com sua renda declarada. Em conversas interceptadas, discutia abertamente com o operador financeiro Wandson Barros a gestão dos pagamentos ilícitos, a escolha de empresas e a distribuição dos valores desviados. Em um dos diálogos, ao perguntar sobre uma empresa vencedora de licitação de R$ 1,1 milhão, questionou: “Essa é a outra nossa?”, obtendo resposta afirmativa. Já respondia a processo criminal por fatos similares ocorridos em Governador Nunes Freire, onde teria intermediado desvios comandados pelo irmão Marcel Curió.

Eva Maria Oliveira Cutrim Dantas, a Eva Curió (Esposa do prefeito)

Integrante do núcleo financeiro da organização criminosa, é apontada como participante ativa nos desvios. Gerenciava contas da Prefeitura e da Câmara Municipal, utilizando-as para pagamento de despesas pessoais da família. Segundo o Relatório de Análise Bancária do Ministério Público, realizava transferências fracionadas para contas de terceiros, incluindo familiares e empresas ligadas ao esquema. Em diálogos interceptados, aparece preocupada com a rastreabilidade dos pagamentos de sua faculdade, feitos diretamente por empresas contratadas pela prefeitura. Também articulava a compra de imóveis como forma de lavar o dinheiro desviado. Recebeu diretamente ao menos R$ 433 mil em transferências de diversos investigados.

Tanya Karla Cardoso Mendes Mendonça (Vice-prefeita)

Substituiu Janaína Soares Lima na chapa majoritária e, segundo o Ministério Público, representou a continuidade da lógica de dominação político-financeira da organização. É sobrinha de Marlon Serrão e filha do ex-prefeito Alberto Serrão. Antes mesmo de assumir o cargo, já indicava empresas para figurarem como destinatárias de recursos desviados. Recebia valores do Posto Turi desde dezembro de 2022, quando nem integrava a chapa eleitoral, o que demonstra vínculo prévio com a organização. Sua permanência na Vice-Prefeitura, segundo a decisão judicial, confere-lhe acesso a informações sensíveis e capacidade de interferir na instrução probatória.

Hyan Alfredo Araújo Mendonça Silva (Esposo da vice-prefeita)

Desempenha função relevante no esquema ao indicar empresas para emissão de notas fiscais frias, com percentuais previamente ajustados entre 12% e 15%. Em conversas interceptadas, aparece atuando conjuntamente com Wandson Barros na operacionalização dos repasses ilícitos, convertendo valores desviados em ativos aparentemente lícitos por meio de pessoas físicas e jurídicas interpostas.

Wandson Jonath Barros (Operador financeiro)

Embora sem cargo formal na prefeitura desde 2021, atuava como “braço direito” do prefeito, recebendo ordens diretas, minutando documentos oficiais e gerenciando toda a logística dos desvios. Recebia 3% dos valores dos contratos fraudados. Utilizava suas empresas — WJ Barros Contabilidade e Agromais Pecuária e Piscicultura — para lavar o dinheiro desviado. Também criou empresas de fachada em nome de “laranjas” para uso exclusivo de Paulo Curió, como a Luminer e Serviços Ltda. Em diálogos interceptados, discutia com o prefeito formas de se resguardar das investigações, incluindo a adulteração de extratos bancários. Um dos registros mostra que, ciente da ilicitude, brincou com um vereador: “vamos logo nós 2 pra cadeia nessa porra kkk”. Teve a suspensão de sua atividade de contador determinada pela Justiça.

Janaína Soares Lima (Ex-vice-prefeita)

Exerceu o cargo de vice-prefeita na gestão anterior e é apontada como integrante do núcleo empresarial da organização. Junto com o marido Marlon Serrão, controlava de fato a empresa Posto Turi Ltda ME, que sozinha recebeu R$ 17,2 milhões da Prefeitura de Turilândia. O casal retinha 10% de cada contrato — chamado de “imposto” nos diálogos —, a pretexto de custear a graduação de Janaína em Medicina. Os 90% restantes eram distribuídos conforme ordens de Paulo Curió e Wandson Barros.

Marlon de Jesus Arouche Serrão (Empresário, marido da ex-vice)

Sócio de fato do Posto Turi, operava diretamente os desvios junto com a esposa Janaína. Mesmo após a Operação Tântalo e o bloqueio judicial das contas da empresa, articulou manobra para retirar valores bloqueados por meio de “depósito reconhecido”, instruindo terceiros sobre como proceder com auxílio de um funcionário do banco. Essa conduta, segundo o Ministério Público, demonstra “ousadia e persistência na prática delitiva”.

Clementina de Jesus Pinheiro Oliveira (Pregoeira)

Presidente da Comissão Permanente de Licitação do município, é apontada como peça-chave no direcionamento de certames. Segundo o Ministério Público, era responsável por direcionar “95% ou mais” das licitações a mando do prefeito. Em conversas interceptadas, aparece se justificando quando uma empresa previamente escolhida não venceu um pregão. Também discutia com Paulo Curió a necessidade de “arrumar a empresa” para publicar editais. Em troca, recebia aumentos salariais, “presentes” e valores em espécie.

Gerusa de Fátima Nogueira Lopes (Chefe do Setor de Compras)

Auxiliava na gestão financeira dos desvios e na ocultação da inexecução dos contratos. Utilizava sua conta pessoal para pagamentos de fornecedores da prefeitura, promovendo confusão patrimonial entre recursos públicos e privados. Mantinha controle minucioso de pagamentos ilícitos em anotações manuscritas apreendidas em sua residência, incluindo repasses a vereadores. Recebeu R$ 386,5 mil em 47 transferências de investigados. Solicitava parte dos repasses em espécie, por receio de movimentar valores elevados em sua conta. É irmã da vereadora Inailce Lopes, a parlamentar que mais recebeu valores no esquema.

Eustáquio Diego Fabiano Campos (Médico)

Atuava como agiota e na lavagem de capitais. Financiou o prefeito com empréstimos a juros antes do início dos desvios em larga escala e, depois, participou da aquisição de imóveis como interposta pessoa para ocultar o patrimônio de Paulo Curió. Pagou a entrada de R$ 700 mil de uma casa de R$ 3,7 milhões adquirida pelo prefeito. Uma escritura de imóvel de R$ 1,6 milhão foi lavrada em nome de seu irmão, mas destinada ao uso de Paulo Curió, registrada em cartório a 318 km de Turilândia para dificultar rastreamento. Recebeu R$ 905,5 mil em transferências fracionadas do esquema e remeteu R$ 1 milhão à empresa Agromais Pecuária.

Prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica (11 vereadores)

A desembargadora Graça Amorim determinou prisão domiciliar com monitoramento eletrônico a todos os vereadores, proibindo contato com demais investigados e testemunhas. Excepcionalmente, segundo a decisão, os parlamentares podem comparecer à Câmara Municipal em dias úteis, das 8h às 17h, para tratar de assuntos estritamente legislativos. Abaixo, o envolvimento de cada vereador na organização criminosa, segundo o Gaeco.

Gilmar Carlos Gomes Araújo (União Brasil, Presidente da Câmara)

Recebeu R$ 14,3 mil diretamente em sua conta, de Wandson Barros, do prefeito Paulo Curió e da empresa Luminer. Por intermédio de sua esposa, Natália Sampaio, recebeu mais R$ 44,3 mil. Autorizou que a esposa do prefeito, Eva Dantas, assumisse o controle das contas da Câmara destinadas aos Fundos Municipais. Enviava comprovantes de transferências bancárias da Câmara para a conta tributária da Prefeitura a Wandson Barros, evidenciando que a organização criminosa realizava desvios diretamente por essas operações. Também mantinha “acordos” com o prefeito para aluguel informal de seus caminhões.

Mizael Brito Soares (União Brasil)

Recebeu R$ 122,4 mil em sua conta pessoal, oriundos de empresas contratadas pela prefeitura no esquema de “venda de notas”. Em conversas registradas, o prefeito admitiu que Mizael “pegou dinheiro da Prefeitura”.

Nadianne Judith Vieira Reis (PRD)

Recebeu R$ 75,6 mil diretamente, além de três parcelas de R$ 75 mil, R$ 75 mil e R$ 20 mil via esposo e filhas. Tinha direito a indicar 50 servidores para a folha de pagamento da prefeitura.

Daniel Barbosa Silva (União Brasil)

Recebeu R$ 54,6 mil em sua conta, além de três parcelas de R$ 50 mil em espécie. Tinha direito a indicar comissionados na prefeitura.

Josias Froes (Solidariedade)

Recebeu R$ 11 mil diretamente e mais valores via filho (Walisson). Consta em anotações como destinatário de duas parcelas de R$ 50 mil em espécie. Tinha direito a indicar 15 servidores.

Inailce Nogueira Lopes (União Brasil)

A mais beneficiada entre os parlamentares. Recebeu R$ 110,9 mil por meio de seu esposo e R$ 107,1 mil por intermédio de sua irmã Neime. É também irmã de Gerusa Lopes, chefe do Setor de Compras, que recebeu R$ 386,5 mil. Aparece em registros como destinatária de três parcelas de R$ 50 mil pagas em espécie. Indicava servidores para a folha de pagamento e recebia valores mensais referenciados como “encomendas”.

Carla Regina Pereira Chagas (PRD)

Recebeu R$ 5,6 mil diretamente, oriundos da empresa Luminer, de Wandson Barros e do próprio prefeito. Aparece como beneficiária de três pagamentos em espécie de R$ 50 mil cada. Seu esposo, Isanei Rodrigues Soares, é secretário municipal de Infraestrutura e recebeu R$ 103,3 mil.

José Luís Araújo Diniz, o “Pelego” (União Brasil)

Recebeu R$ 18,6 mil em sua própria conta, valores da empresa Luminer, de Wandson Barros e do prefeito. Consta em anotações apreendidas como destinatário de três parcelas de R$ 50 mil em espécie.

Sávio Araújo e Araújo (PRD)

Recebeu R$ 27 mil em sua conta e R$ 13,6 mil via seu pai, Aldecir Araújo. Consta em anotações como beneficiário de duas parcelas de R$ 75 mil pagas em espécie.

José Ribamar Sampaio (União Brasil)

Recebeu R$ 77,9 mil em sua conta e R$ 127,5 mil por intermédio de quatro filhos. Consta em anotações como destinatário de três parcelas de R$ 66,6 mil em espécie.

Valdemar Barbosa (Solidariedade), vereador licenciado, atual secretário municipal de Agricultura

Recebeu R$ 4,3 mil diretamente e R$ 21 mil via companheira. Consta como destinatário de duas parcelas de R$ 50 mil em espécie. Pedia “gordos presentes” ao esquema.

Fonte: Atual7

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