ARTIGO

Greve dos Caminhoneiros, redes sociais e a imbecilização do brasileiro

Os dias de protestos renderam engajamentos nas redes sociais, mas trouxeram consigo a constatação de que o brasileiro ainda não entendeu completamente o que está em jogo

 

A greve dos caminhoneiros começou em 21 de maio e trouxe à tona, em menos de uma semana de protestos, reflexões importantes sobre como o brasileiro enxerga questões tão delicadas no que diz respeito a política e seu engajamento. Ameaçando repetir a salada ideológica de junho de 2013, o Brasil chega ainda mais perto de explodir a uma proporção nunca antes vista: um governo que não sabe o que fazer e quando faz, escolhe sempre agradar ao mercado e aos mais ricos (como é o caso da política de preços dos combustíveis que gerou toda essa revolta); ameaças constantes da quebra da ordem constitucional; grandes meios de comunicação coniventes; e a população sem conhecimento da dimensão necessária do que está em jogo assistindo a tudo enquanto faz piada de si mesmo.

Uma das características do povo brasileiro é rir de si mesmo frente a situações extremamente degradantes. Em tempos de redes sociais então, esse jeito peculiar de lidar com as imposições do governo geram memes que se espalham em um piscar de olhos, fruto da imensa criatividade de pessoas que, com um computador ou smartphone e conhecimentos básicos de photoshop ou edição, conseguem fazer montagens engraçadíssimas, deixando muito humorista no chinelo. Não há nada de errado em rir ou compartilhar memes. Mas há dois problemas a serem analisados decorrentes dessa situação: é possível que muitas pessoas estejam se engajando somente pelo que lhes aparecem nas notificações do Whatsapp e Facebook, o que gera o efeito da imbecilização e consequente superficialidade na abordagem do assunto; o outro problema é a crescente onda conservadora que atinge aos poucos várias camadas da sociedade – entre os caminhoneiros, por exemplo, era possível ver faixas de apoio à intervenção militar.

Se já não bastasse toda essa bizarrice, imagine então você ler que as mesmas pessoas que pedem a intervenção militar agora chamam o General Villas Boas, que teve seu vídeo replicado à exaustão no Whatsapp, de comunista? E Michel Temer? Sim, até ele. Mas o que os memes e as redes sociais têm a ver com isso? A internet não deveria ser o meio pelo qual as pessoas teriam imensa variedade de leitura e informações? A princípio, sim, porém as redes sociais trouxeram consigo um comodismo nos usuários que os fazem ficar presos em bolhas sociais. Claro, ninguém é obrigado a seguir outra pessoa cujas publicações lhe desagradam, mas a questão principal é que esse “isolamento” de informações trouxe consequências desastrosas daquilo que enxergávamos como algo inofensivo.

 

Respondendo a pergunta sobre a relação entre os memes e as redes sociais, percebemos cada vez mais que a leitura nesses ambientes tem se tornada efêmera e o aspecto visual ganha cada vez mais destaque. No Facebook, publicações com fotos e vídeos são mais fáceis de serem acessadas do que textos, de acordo com os algorítimos da rede social, o Instagram então nem precisa dizer, mas o Whatsapp tem sido o meio mais eficaz de espalhar todo tipo de conteúdo pelo qual as pessoas são bombardeadas. Com os trabalhadores caminhoneiros não foi diferente. Sem filtro suficiente para julgar aquela informação como verdadeira ou falsa, acabam por aceitar que aquilo que está sendo dito ou mostrado está acontecendo, independentemente de sua veracidade.

E para não se ater somente a internet, a mídia tradicional há muito tempo tem se colocado a frente no sentido de comandar as narrativas, nem sempre com sucesso, é claro, devido a vastidão que a internet possui e a mídia alternativa, mas ainda assim com grande influência principalmente por causa do seu poder econômico e seu alcance nas redes sociais.

A salada de conceitos e influências misturados nas cabeças das pessoas se soma à frágil educação cidadã que o brasileiro possui, com exceções, sim, mas que preocupa pela falta de senso de afirmações e marchas cada vez mais numerosas de pessoas que querem protestar exigindo intervenção militar embalado ao som de “Para Não Dizer Que Não Falei Das Flores” de Geraldo Vandré – um hino de resistência à Ditadura Militar. E a situação só piora quando vemos as pesquisas para presidente: ainda que a maioria deseje a volta de um candidato que está preso em um processo duvidoso, o segundo colocado é um despreparado e arrogante que presta continência a bandeira dos EUA, mas se diz patriota, arrastando, em sua maioria, jovens ingênuos com seu discurso claramente em favor da tortura e da volta do regime ditatorial.

Bizarro. Merece até um meme. Mas do jeito que as coisas estão, não é mais hora para rir.

Só lamentar.

Por Aquiman Costa

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Aquiman Costa

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo (2015) e Pós-Graduado em Assessoria de Comunicação (2018), ambos pela Faculdade Estácio de São Luís.

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