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Morte do empresário João Bosco e a escolta policial silenciosa para Daniel Brandão

Presidente do Tribunal de Contas do Maranhão passa a contar com quatro policiais militares em segurança particular, sem explicações públicas.

São Luís (MA) – O assassinato do empresário João Bosco de Oliveira Sobrinho, ocorrido em agosto de 2022 no edifício Tech Office, no bairro Ponta do Farol, em São Luís, segue produzindo reflexos no cenário político maranhense. O caso, que envolve denúncias de suposta cobrança de propina na Secretaria de Estado da Educação (Seduc), lança questionamentos diretos sobre a atuação do presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA), Daniel Brandão, e, por consequência, sobre a gestão de seu tio, o governador Carlos Brandão.

A investigação, atualmente conduzida pela Polícia Federal (PF), aponta que Daniel Brandão esteve no local do crime minutos antes do assassinato. Em meio a esse contexto, a concessão de escolta policial oficial ao presidente do TCE, sem justificativa pública clara, amplia suspeitas sobre possíveis mecanismos de blindagem institucional e falta de transparência.

O crime e as denúncias de propina

Em 19 de agosto de 2022, João Bosco foi executado a tiros dentro do edifício Tech Office. De acordo com depoimentos colhidos pela Polícia Federal e imagens analisadas no curso da investigação, Daniel Brandão — à época secretário do governo estadual e hoje presidente do TCE-MA — estava reunido no prédio com um vereador de São Luís e com Gilbson Júnior, autor confesso do crime, pouco antes dos disparos.

A motivação do homicídio, segundo depoimentos prestados à PF, estaria relacionada a um desentendimento na divisão de uma suposta propina no valor de R$ 778 mil. O montante teria origem em um pagamento da Seduc a uma empresa de segurança privada e, conforme relatos, seria destinado ao financiamento de campanhas eleitorais. Daniel Brandão é citado como um dos possíveis beneficiários do esquema, segundo declaração do próprio autor do assassinato.

Presença no local e silêncio oficial

Apesar da confirmação de sua presença no local do crime e de seu nome figurar no centro das denúncias, Daniel Brandão não foi ouvido pela Polícia Civil do Maranhão durante a fase inicial das investigações. Posteriormente, o caso foi remetido à Polícia Federal e encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em razão do foro por prerrogativa de função de Daniel Brandão.

Daniel Brandão nega todas as acusações, classificando-as como “falsas, infundadas e destituídas de materialidade”, além de alegar que teria sido alvo de tentativa de extorsão por parte da família do assassino. Ainda assim, tanto ele quanto o governador Carlos Brandão permanecem em silêncio sobre os detalhes da reunião realizada no Tech Office e sobre o teor das denúncias envolvendo a Seduc.

A escolta policial e a ausência de explicações

Em meio a investigações em curso e a denúncias de alta gravidade, o governador Carlos Brandão autorizou a concessão de escolta armada da Polícia Militar do Maranhão (PMMA) a Daniel Brandão. A medida prevê a atuação de quatro policiais em sua segurança pessoal.

A decisão, no entanto, não foi acompanhada de justificativa pública consistente, como a apresentação de ameaças concretas, relatórios de inteligência ou registros de risco iminente. Mesmo assim, a Assembleia Legislativa do Maranhão aprovou a medida com votos da base governista.

A ausência de transparência alimenta interpretações de que a escolta ultrapassa a finalidade de proteção pessoal e se insere em uma estratégia política mais ampla. Entre os possíveis objetivos da medida, analistas apontam:

  • Controle da exposição pública: dificultar o acesso da imprensa e de opositores a Daniel Brandão, reduzindo questionamentos sobre o caso;

  • Sinalização de apoio institucional: demonstrar respaldo do governo a uma figura central, mesmo sob investigação;

  • Gestão de crise: evitar situações que ampliem o desgaste político ou o vazamento de informações sensíveis enquanto o grupo articula sua defesa.

Blindagem versus transparência

A conexão entre o assassinato ocorrido na Ponta do Farol, as denúncias de propina envolvendo a Seduc e a concessão de escolta policial sem explicações claras reforça a percepção de que o governo estadual atua para conter uma crise política de grandes proporções. Nesse cenário, a blindagem institucional parece prevalecer sobre princípios básicos de transparência e prestação de contas à sociedade.

O desfecho das investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça será determinante para esclarecer os fatos e apontar responsabilidades em um dos episódios mais sensíveis da política recente do Maranhão.

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