Em depoimento à Polícia Federal Gilbson Cutrim descreve morte de João Bosco e afirma que Daniel Brandão estava na hora do crime no Tech Office
Relato do réu confesso do Caso Tech Office amplia o alcance das investigações e levanta suspeitas sobre uso da máquina pública pelo governador Brandão.
O crime que ficou conhecido como “Caso Tech Office”, que vitimou o empresário João Bosco, ganhou novos desdobramentos após depoimento prestado por Gilbson César Soares Cutrim Júnior à Polícia Federal. Condenado e atualmente preso em Brasília, ele apresentou a verdadeira versão dos fatos, que amplia o alcance das investigações e inclui o nome de Daniel Brandão, presidente do TCE-MA, na cena do crime.
O caso passou a ser conduzido pela Polícia Federal após denúncia feita pela esposa de Gilbson à Justiça Federal. Ela alegou que o marido estaria sendo submetido ao uso de medicamentos psicotrópicos sem o devido acompanhamento médico no Presídio de Pedrinhas, o que motivou a federalização das investigações em maio de 2025.
No depoimento, Gilbson afirma que Daniel Brandão estaria presente no local no momento do crime. A declaração, embora ainda em fase de apuração, eleva a gravidade do caso e amplia a pressão sobre figuras próximas ao governador Carlos Brandão.
É importante destacar que, com a federalização, os atos investigativos anteriores conduzidos pela Polícia Civil do Maranhão perdem protagonismo jurídico, passando a investigação a ser centralizada na esfera federal.
Segundo a Polícia Federal, há indícios de possível uso da estrutura estatal para proteção de integrantes da família do governador Carlos Brandão, hipótese que ainda está sob investigação. As declarações de Gilbson, no entanto, fazem parte de um depoimento formal no inquérito e não estão vinculadas a acordo de delação premiada ou colaboração que envolva benefícios legais diretos ao depoente.
O depoimento foi colhido no dia 19 de fevereiro de 2026, na Central de Inquéritos dos Tribunais Superiores, em Brasília, com a presença de autoridades federais. Durante mais de três horas, Gilbson respondeu a questionamentos sobre os acontecimentos do dia 19 de agosto de 2022, no edifício Tech Office, localizado no bairro Ponta do Farol, em São Luís.
Relação com o grupo político
Em seu relato, Gilbson afirma ter conhecido o governador Carlos Brandão em agosto de 2020, em reunião realizada no edifício João Goulart, onde funciona a Vice-Governadoria, no centro da capital maranhense. Segundo ele, o encontro teria sido intermediado pelo ex-vereador Ivaldo Rodrigues.
Posteriormente, uma nova reunião teria ocorrido na residência oficial, no bairro do Turu, já com a presença de Daniel Brandão. A partir desse momento, segundo o depoente, iniciou-se uma relação mais próxima.
Gilbson afirma que, após esse contato inicial, teria recebido a missão de intermediar uma invasão de terras atribuídas à família Brandão, na região do Porto do Cajueiro, na área Itaqui-Bacanga, na zona rural de São Luís.
Ainda de acordo com o depoimento, o êxito dessa ação teria fortalecido os vínculos e aberto espaço para um suposto esquema de arrecadação de recursos, baseado na cobrança de valores de contratos antigos do governo, especialmente aqueles acima de R$ 5 milhões.
Segundo Gilbson, Daniel Brandão atuaria como articulador central dessas operações, enquanto os vereadores Beto Castro e Paulo Vitor eram responsáveis por fazer o contato com os empresários que tinham valores a receber. O próprio depoente afirma que seria responsável pela cobrança e pelo transporte dos valores.
Ruptura e conflito
A relação, no entanto, teria se deteriorado após questionamentos internos sobre pagamentos considerados irregulares. Gilbson relata que divergências sobre valores e bloqueios judiciais teriam provocado conflitos diretos com integrantes do grupo político do governador Carlos Brandão.
Ele afirma que houve troca de acusações e ameaças em conversas telefônicas, o que teria levado à tentativa de um encontro presencial para resolver o impasse.
O dia do crime
Segundo o depoimento, o encontro foi marcado no edifício Tech Office. Gilbson relata que chegou antes ao local e observou a movimentação dos envolvidos.
Ele afirma que Daniel Brandão teria chegado acompanhado de Marcus Brandão, mas apenas Daniel teria descido do veículo. Em seguida, o vereador Beto Castro teria chegado acompanhado de João Bosco Sobrinho, empresário que seria morto minutos depois.
De acordo com o relato, uma discussão teria se iniciado rapidamente, com troca de ameaças. Gilbson afirma que, ao suspeitar de uma possível emboscada ao ser convidado para entrar em um veículo, reagiu e efetuou disparos que resultaram na morte de João Bosco.
Suposta tentativa de ocultação
Após o crime, Gilbson sustenta que teria havido uma tentativa de ocultar a presença de Daniel Brandão no local. Ele também afirma que sua família teria recebido pagamentos regulares, que seriam, segundo ele, uma forma de garantir silêncio.
Essas alegações foram reforçadas por depoimento do pai do acusado, Cesar Cutrim, que apresentou comprovantes e registros de comunicação à Polícia Federal. O material está sob análise dos investigadores.
Além disso, Gilbson entregou documentos e informações sobre supostos contratos, pagamentos e movimentações financeiras que agora integram o inquérito. Medidas cautelares, como quebra de sigilo bancário e telefônico dos envolvidos, já foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal.
Investigação em andamento
A Polícia Federal segue apurando os fatos e analisando as declarações apresentadas. As informações prestadas por Gilbson ainda serão confrontadas com outras provas e depoimentos no curso da investigação.
Diante da gravidade das acusações e dos elementos já reunidos, o caso deve avançar para novas etapas nos tribunais superiores, podendo trazer desdobramentos relevantes no cenário político do Maranhão.
Fonte: Os Analistas



