Gratuidade de 10 mil ingressos ou sonegação de impostos no jogo Botafogo-PB x Flamengo no Castelão?
Com ingressos entre R$ 190 e R$ 960, renda declarada não bate com o público presente nas arquibancadas
O Estádio Castelão, em São Luís, foi palco no último 1º de maio de um grande espetáculo esportivo — Flamengo 1 x 0 Botafogo-PB — e, ao que tudo indica, também de um possível enredo de novela mexicana com pitadas de fraude fiscal. Se o Ministério Público do Maranhão decidir investigar com seriedade, poderá encontrar indícios de crime tributário envolvendo a renda declarada do evento.
O borderô do Castelão registrou um público de 35.381 torcedores, com 25.150 pagantes e 10.231 gratuidades. A renda declarada foi de R$ 4.626.806,00. Mas a matemática levanta suspeitas. Considerando apenas o ingresso mais barato — o “solidário”, de R$ 190 — para os 25.150 pagantes, o valor arrecadado já deveria ser de pelo menos R$ 4.750.000, ou seja, R$ 123.194,00 a mais do que o informado pelos organizadores.
O problema se agrava ao observarmos que, no decorrer das vendas, os preços variaram de R$ 190 até R$ 960 — com destaque para os camarotes, cheios de empresários, magistrados, políticos e figurões locais, inclusive lotando espaços como as cabines de rádio e TV. Aparentemente, dinheiro circulou, mas não apareceu na contabilidade oficial.
O que chama atenção da imprensa nacional — e deveria chamar das autoridades fiscais — é o número elevado de ingressos gratuitos: mais de 10 mil pessoas teriam assistido à partida sem pagar nada, em um evento cujo mando de campo foi vendido pelo Botafogo-PB a um grupo de empresários por cerca de R$ 6 milhões. Será que os organizadores simplesmente abriram mão de milhões em bilheteria por “solidariedade” ou “generosidade empresarial”? Duvidoso. Ainda mais considerando que o grupo controlava integralmente a operação e a bilhetagem do evento.
A reunião entre os empresários e o governador Carlos Brandão também levanta suspeitas. Cortesias foram distribuídas? O Palácio dos Leões foi agraciado com ingressos? Difícil imaginar o contrário. Para completar, o próprio governador anunciou que beneficiários do programa Travessia foram levados ao Castelão com vouchers do TáxiGov, fornecidos pela Maranhão Parcerias (Mapa). É evidente que esses custos não foram cobertos por caridade — e também não entraram nas tais “gratuitades”.
A pergunta que fica é: houve sonegação de impostos por subfaturamento da renda? Ou foi apenas uma megaoperação para “encher estádio”, com 10 mil gratuidades bancadas por empresários que, supostamente, teriam aceitado um prejuízo de quase R$ 3 milhões?
O povo maranhense conhece bem esse tipo de manobra. Tem torcedor que vai pagar o ingresso de Botafogo-PB x Flamengo em 360 vezes no carnê, mas não acredita, nem por um segundo, que a arrecadação oficial foi apenas aquela divulgada. A Receita Estadual e a Receita Federal têm o dever de investigar: ou houve sonegação, ou estamos diante do maior ato de benevolência empresarial que o futebol brasileiro já viu.
De todo modo, estranho. Muito estranho…



