BABADO DA SEMANA

Iranianos pedem vingança aos Estados Unidos

Corpo de Qassem Soleimani chega ao Irã acompanhado por multidão e gritos de 'morte aos EUA'

O corpo do comandante militar iraniano Qassem Soleimani, assassinado por um míssil lançado pelos Estados Unidos na sexta-feira (horário local) quando deixava o aeroporto internacional de Bagdá, chegou ao Irã na madrugada deste domingo, onde foi recebido por milhares de pessoas e gritos de “morte aos EUA”. Horas antes, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou a República Islâmica, afirmando ter 52 alvos iranianos em sua mira, e disse que não hesitará em atacá-los caso o país persa atinja pessoas ou propriedades americanas.

Segundo a mídia estatal iraniana, o caixão de Soleimani foi recebido na cidade de Ahvaz, no sudoeste do país, por dezenas de milhares de pessoas vestidas de preto. Com uma grande minoria árabe, o município é capital do Khuzistão, província mártir da guerra Irã-Iraque (1980-1988), marco da carreira do general. O cortejo fúnebre atravessou as ruas em baixa velocidade, levando também o corpo de Abu Mahdi al-Muhandis, vice-comandante das Forças de Mobilização Popular (FMP), morto na mesma operação americana.

As FMP são uma coalizão de milícias xiitas iraquianas pró-Irã formadas em 2014 para combater o Estado Islâmico no Iraque e que depois foram incorporadas às forças de segurança do país. Diversas bandeiras do grupo foram vistas no sábado nas ruas de Bagdá, onde dezenas de milhares de pessoas participaram do cortejo para Soleimani. A mobilização, que contou com a presença do primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdul Mahdi, e de vários chefes de grupamentos políticos xiitas, seguiu o corpo do general pelas cidades de Karbala e Najaf  — locais de peregrinação dos muçulmanos xiitas.

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Gritos de “morte à América” foram ouvidos não só nas ruas da capital iraquiana, mas também em uma sessão parlamentar extraordinária realizada pelo Parlamento neste domingo, onde será discutida a saída dos cerca de 5 mil soldados americanos que permanecem no país. O Legislativo precisará aprovar uma moção que obriga o governo a pedir que os EUA retirem seus soldados.

De Ahvaz, o corpo de Soleimani será levado ainda neste domingo para a cidade e Machhad, no noroeste do país, e para Teerã, onde será recebido em um serviço fúnebre comandando pelo aiatolá Ali Khamenei. Na segunda-feira, o  cortejo seguirá para Qom, no centro do país, antes de prosseguir para a cidade natal do general, Kerman, onde o enterro está previsto para terça-feira.

Saiba mais: Soleimani era considerado um ‘mártir vivo’ no Irã, e seu assassinato representou um duro golpe para o regime.

52 alvos

O desembarque do corpo de Soleimani no Irã aconteceu apenas horas após o presidente Donald Trump tuitar que os EUA têm 52 alvos iranianos na mira, “alguns deles de alto nível” e “de grande importância para o Irã e para a cultura iraniana”. O presidente dos EUA disse que não hesitará em atacá-los caso os iranianos atinjam pessoas ou propriedades americanas. Pela lei internacional, destruir deliberadamente centros e locais culturais de um país é considerado crime de guerra.

Trump fez referência à crise dos reféns americanos no Irã, episódio crucial na história das relações entre os países, quando 52 americanos foram mantidos reféns por 444 dias (de 4 de novembro de 1979 a 20 de janeiro de 1981), após um grupo de estudantes e militantes islâmicos tomarem a embaixada americana em Teerã, em apoio à Revolução Iraniana que havia acabado de ocorrer.

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As ameaças do líder americano foram rapidamente criticadas por altas figuras do governo. Segundo o chanceler Mohammad Javad Zarif, “mirar alvos culturais é um crime de guerra” e “o fim da presença maligna dos EUA no Oriente Médio começou”. Como os dois países não têm relações diplomáticas, o Irã convocou o embaixador suíço que representa os interesses americanos em Teerã para protestar contra “os comentários hostis” de Trump. O ministro de Informação e telecomunicações Mohammad Javad Azari-Jahromi, por sua vez, chamou o presidente americano de “terrorista de terno”.

“Como o Estado Islâmico, como Hitler e Genghis [Khan]! Eles odeiam todas as culturas. Trump é um terrorista de terno. Ele vai aprender muito em breve que ninguém pode derrotar a “grande nação e cultura iraniana”, tuitou o ministro.

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Em paralelo, cidadãos iranianos começaram um movimento em suas redes sociais, onde identificam os pontos culturais iranianos mais simbólicos em seus pontos de vista. Hoje, há 24 lugares no país considerados patrimônios da humanidade pela UNESCO.

Reações diplomáticas

Na noite de sábado, um grupo que afirma ser composto por hackers iranianos invadiu o site do Programa Federal de Arquivos Bibliotecários, uma agência pouco conhecida do governo americano. A mensagem mostrada no portal prometia retaliação pela morte de Suleimani, afirmando que “o martírio foi sua recompensa por anos de esforços implacáveis”. Em meio a uma imagem de Trump sendo socado por uma mão que sai do Irã e mísseis, o recado promete uma “grande revanche”. Sua autoria, no entanto, não foi confirmada.

Na manhã desde domingo, o líder do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah, disse que o assassinato de Soleimani marca uma “nova fase” “não só para o Irã e o Iraque, mas para todo o Oriente Médio”. A declaração de Nasrallah, aliado do regime iraniano, foi realizada em uma manifestação em homenagem ao general iraniano em Beirute.

Em paralelo, esforços internacionais para aliviar as tensões continuam. O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, insistiu, em conversa telefônica com o chanceler iraniano, Mohammad Zarif, na “necessidade de redução” da tensão na região. No telefonema, Borrell destacou “a necessidade de moderação e de evitar qualquer escalada”, segundo um comunicado emitido neste domingo por Bruxelas.

Na sexta-feira, Zarif já havia conversado com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, para discutir o assassinato. Segundo um comunicado do governo russo, “Lavrov expressou suas condolências pelo assassinato”. “Os ministros enfatizaram que tais ações dos Estados Unidos violam grosseiramente as normas do direito internacional”, diz a nota.

Por O Globo e agências internacionais

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