CULTURA

Sotaque de Zabumba: Ancestralidade e resistência no bumba meu boi do Maranhão

É o primeiro sotaque de bumba meu boi do Maranhão e que carrega com mais força a sua originalidade

De todos os sotaques de bumba meu boi, o de zabumba talvez seja o que mantém com mais originalidade a influência africana e açoriana nas apresentações. Além disso, assim como o sotaque de costa de mão, também tenta se manter frente a indústria cultural que permeia o bumba meu boi e, por vezes, altera a razão de ser das brincadeiras nos arraiais.

Nas apresentações, os brincantes se dividem nos papéis de amos, indígenas, rajados, vaqueiros, palhaços, pais Francisco, Catirinas, além do boi. Já a sonoridade vem principalmente da zabumba (grandes tambores), e outros instrumentos musicais, como os pandeirinhos, maracás e tantãs.

As zabumbas são rústicas e feitas à mão, arrochadas na corda. Os pandeiritos são feitos de jenipapo e cobertos com couro, normalmente de bode.

Vestuário e ritmos

Originário do município de Guimarães, o sotaque de zabumba tem como principais grupos o Boi de Leonardo, Boi de Vila Passos, Boi da Fé em Deus, Boi Unidos Venceremos, Boi de Guimarães e Boi Brilho de São João.

Para a professora da UFMA e pesquisadora de cultura popular, Ester Marques, a influência dos açorianos é uma das razões pelo qual a zabumba é usada nesse sotaque. Já a forma como é tocada possui influência africana.

“Não é à toa que a região de Guimarães e da baixada, assim como no Munim, são regiões povoadas pelos açorianos e não pela Portugal continental. Quando você vai aos açores, a primeira coisa que você vê nas manifestações culturais é a zabumba, não com o mesmo ritmo que se tem aqui. No arquipélago dos açores é muito comum. (…) E aqui no Maranhão, a zabumba é tocada de forma muito fortemente como alguns instrumentos de percussão na África. Por que isso? É porque a região da baixada foi a que mais recebeu negros da África para cá. Por isso temos tantos quilombos por lá”, explica.

No vestuário, destacam-se golas e saias de veludo bordado e chapéus com fitas coloridas. Também são usados miçangas e canutilhos nas roupas.

Nas danças e nos contos transmitidos nas apresentações, chama a atenção a influência africana e indígena, com passos mais curtos e repisados. As apresentações são feitas em formato semicircular – como indígenas fazem em aldeias – e é organizada pelos tocadores e demais brincantes, com os instrumentos tocados em ritmo mais acelerado que os demais sotaques.

Ancestralidade e resistência

Brincantes de grupos de sotaque de zabumba contam que as toadas do boi de zabumba podem lembrar um ‘tormento’ dos escravos, que saíam de suas senzalas e cantavam para se divertir e se distrair, mesmo machucados, no período colonial. Não é como se fosse uma saudade, mas é lembrança dos antepassados, dos ancestrais.

Bumba meu boi Brilho da União, sotaque de zabumba — Foto: Dossiê sobre o bumba meu boi/Iphan

Em outros casos, as músicas podem explicitamente fazer algum tipo de ‘ativismo’ relacionado aos negros. É o caso da letra de uma das músicas do Boi de Guimarães, que critica o racismo.

“Pra não ficar se humilhando por diferença de cor … ‘Seje’ nego ou ‘seje’ branco, tem que ser respeitado. Todos nós temos o direito de viver sem ser discriminado // Só que isso não é de hoje, tá se tornando mundial // Todo dia a gente vê, tá passando no jornal // Olha, quando eu vejo isso, eu juro que me sinto mal // De ver o negro ser chamado de mal o ou qualquer outro animal // (…) Se tu é racista, tu não tá com nada… Se tu tem preconceito, tu não vale nada…”, diz alguns trechos da música.

Apesar de ser considerado o primeiro sotaque de bumba meu boi, o grupos vêm diminuindo e perdendo espaço nos arraiais a cada ano. Um dos motivos é que outros sotaques mais dançantes, ou enfeitados, como os de orquestra, têm atraído mais brincantes do que os sotaques mais ‘raiz’.

Apesar disso, dentro dos amantes do sotaque de zabumba existe um sentimento de não deixar a brincadeira acabar. No ano de 1994, o mestre Basílio Durans criou o Festival Bumba Meu Boi de Zabumba, com a proposta de resgatar as raízes do sotaque Zabumba, que esteve em declínio e quase foi extinto.

Outra razão para não haver ‘preocupação’ quanto a existência do sotaque da zabumba está no próprio povo que faz esse sotaque, lá na região da baixada maranhense. Para Ester Marques, enquanto esse tipo de bumba meu boi estiver fortemente enraizado no cotidiano daqueles povos, o sotaque de zabumba não vai acabar.

“Não vejo reduzindo tanto o número de brincantes porque naquela região de Guimarães, Mirinzal, Penalva… a influência do bumba meu boi está no dia a dia dos brincantes. E uma das coisas importantes no folclore e na cultura popular, é que isso só tem sentido no mundo cotidiano das pessoas. E essas pessoas vivem o bumba meu boi o ano inteiro, não só em uma apresentação, como num grupo de jovens que fazem na época do bumba meu boi. Lá o boi é vida, é ritmo e faz parte da vida das pessoas. (…) Esse sotaque não vai acabar, desde que os grupos e as comunidades de onde o sotaque vêm tenham consciência da importância simbólica que essas manifestações têm para suas próprias vidas lá na comunidade. E Guimarães e aquela região toda têm essa consciência”, explica a pesquisadora.

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