A deselegância de Sirlan Sousa com a deputada Iracema Vale
Ataques pessoais nas redes sociais expõem desvio de foco e ferem princípios básicos do jornalismo.
A postura da jornalista Sirlan Sousa ao se referir à presidente da Assembleia Legislativa do Maranhão, Iracema Vale, tem gerado críticas e levantado um debate necessário sobre os limites entre opinião e ataque pessoal. A falta de empatia e a forma deselegante com que a comunicadora se posiciona nas redes sociais acabam revelando mais sobre sua condução no debate público do que propriamente sobre o alvo de suas críticas.
Usar as redes sociais para atacar pessoas por conta de posicionamento político ultrapassa o campo ideológico e entra em um terreno perigoso, onde o respeito e a ética ficam em segundo plano. Gostando ou não, Iracema Vale ocupa hoje a presidência do Legislativo maranhense e carrega um marco histórico: é a primeira mulher a comandar a Assembleia Legislativa em quase dois séculos.
É justamente nesse ponto que se espera a postura de um bom jornalista: criticar, opinar e analisar fazem parte do ofício. O que foge completamente do manual do jornalismo é partir para ataques pessoais, invadir aspectos íntimos ou tentar desqualificar uma autoridade por elementos que nada têm a ver com sua atuação pública.
Sirlan Sousa, que já tentou se firmar no campo político e foi testada nas urnas sem sucesso, parece ainda não ter ajustado sua estratégia. Primeiro se posicionou como bolsonarista radical, sem encontrar acolhimento sólido dentro da direita maranhense. Agora, tenta se alinhar ao grupo do ex-prefeito Eduardo Braide, mas sem qualquer sinal concreto de espaço político dentro desse campo. Trata-se de uma profissional reconhecidamente inteligente, mas que, ao que tudo indica, tem se afastado do faro que marca o bom jornalismo.
Como formadora de opinião, esperava-se um movimento diferente: somar forças na valorização da presença feminina na política, reconhecer avanços institucionais e saber separar divergência ideológica de ataques desnecessários. Em vez disso, opta por críticas que, em muitos casos, soam desproporcionais e deslocadas.
O episódio em que a jornalista ironiza o cabelo de Iracema Vale, chamando-a de “Carminha” — numa comparação grotesca com uma personagem desequilibrada de uma novela da Globo — é um exemplo claro de desvio de foco. Trata-se de um tipo de abordagem que empobrece o debate e pouco contribui para a sociedade.
É importante lembrar: o caráter e a capacidade de um agente público não estão ligados à aparência, vestimenta ou estilo pessoal. Reduzir a análise política a esse nível demonstra fragilidade argumentativa e uma visão limitada do cenário público.
A atuação recente de Sirlan nas redes sociais tem sido vista por muitos como um equívoco estratégico. Ao tentar se aproximar politicamente de determinados grupos, acaba adotando uma postura que mais afasta do que agrega — ainda mais quando o próprio cenário político já demonstrou ter suas preferências bem definidas.
Talvez seja o momento de reavaliar caminhos. A política maranhense conta com diversas mulheres que construíram trajetórias relevantes, como Iracema Vale, Roseana Sarney, Lia Varela, Conceição Andrade, maura Jorge, Gardênia Gonçalves e etc — nomes que, independentemente de ideologia, ajudam a consolidar a presença feminina com firmeza e respeito no espaço público.
Ser bolsonarista radical, braidista, de direita ou de esquerda é, antes de tudo, uma escolha individual. O que não pode — e não deve ser normalizado — é transformar o debate político em um palco de ataques pessoais, envolvendo famílias e questões íntimas, apenas para agradar ou tentar conquistar espaço com alguém.
A política exige posicionamento, firmeza e até confronto de ideias, mas dentro de limites claros. O direito de expressão de um termina exatamente onde começa o direito do outro. Ultrapassar essa linha não fortalece o debate — pelo contrário, empobrece, desqualifica e afasta o que realmente importa: a discussão séria sobre os problemas e soluções para a sociedade.
No fim das contas, o debate político precisa evoluir — e isso começa, necessariamente, pelo respeito. Valorizar a participação feminina não é questão de prioridade no sentido de privilégio, mas de reconhecimento histórico e de garantia de igualdade, após tantos anos de sub-representação e desrespeito.
Respeitar as mulheres na política é fortalecer a democracia. É assegurar que o debate seja feito com dignidade, foco em ideias e compromisso com a sociedade — e não com ataques pessoais ou tentativas de desqualificação.
Por João Filho – Jornalista, Radialista e Pesquisador.



