Luís Cardoso: um professor de jornalismo fora da sala de aula e uma legião de alunos
Artigo escrito e publicado por João Filho - Jornalista, Radialista e Pesquisador

Há 27 anos, quando cheguei a São Luís com uma mochila de tecido jeans nas costas e o sonho de ser jornalista no coração, percorri rádios e redações em busca de uma oportunidade. Nessas andanças de porta em porta pelos veículos de comunicação, conheci figuras marcantes como Roberto Fernandes, Juarez Medeiros, Juraci Vieira, Neris Pinto, José Santos, Albino Soeiro, Léo Felipe, Zé Pequeno, Coelho Neto, Fernando Souza, Tércio Dominice, Laércio Costa, Gilson Rodrigues, Adolfo Vieira, Garcia Júnior, Adalberto Melo, Valber Martins (Canarinho), Geraldo Castro, Rui Dourado, Djalma Rodrigues, Jânio Arley, Udes Cruz, Silvan Alves — e também o lendário e destemido Luís Cardoso.
Naquele ano de 1997, o rádio e o jornal impresso ainda reinavam absolutos. O jornalismo digital era um conceito distante, quase inimaginável. Luís Cardoso, no entanto, já era uma referência na comunicação maranhense. Para quem sonhava com o jornalismo, seu nome era uma bússola. Quando ele me recebeu por alguns minutos na redação de um jornal do qual era sócio, dedicou tempo e atenção a um jovem de 22 anos, recém-chegado da zona rural de Bequimão, fascinado pela comunicação.
Cardoso não era apenas um jornalista. Era uma escola. Por quase meio século, como o rádio, ele se reinventou. Acompanhou as transformações da mídia e se manteve relevante em todas elas. Na blogosfera, seu nome passou a ser sinônimo de respeito — e, para muitos, de temor — sobretudo entre políticos e poderosos. Mencioná-lo em sala de aula era quase certeza de que o rumo da aula mudaria. Se o professor não sabia muito sobre ele, os próprios alunos se encarregavam de dar a lição.
Mesmo sendo um dos profissionais mais veteranos do jornalismo digital, Luís Cardoso manteve a inquietação e a coragem que sempre o caracterizaram. Seu blog foi o mais lido do Maranhão por muitos anos, especialmente por sua cobertura incisiva da política, seus furos de reportagem e seu compromisso com a denúncia e a fiscalização.
Mas neste sábado (12), a manchete foi diferente — e dolorosa. Luís Cardoso foi encontrado morto em sua residência, aos 65 anos. A suspeita é de infarto. Meu último encontro com Luís Cardoso foi há exatos dois anos, em abril de 2023, quando ele foi homenageado pela Câmara de Vereadores de São Luís como ex-diretor de comunicação daquela Casa Legislativa.
Início da carreira
Sua trajetória começou em 1980, no jornal O Diário do Povo, sob a direção de Walter Rodrigues. Em 1981, passou pela Rádio Ribamar e pela TV Ribamar, onde trabalhou ao lado de Cláudio Farias e Dulce Brito, sob a supervisão de Viviane de Marco. Em 1982, assumiu a editoria do jornal O Povo do Maranhão, de propriedade dos jornalistas Udes Cruz, Raimundo Filho e Ruy Barbosa Moreira Jr.
Expansão e empreendedorismo
Cardoso também atuou como freelancer nos jornais O Estado do Maranhão e Jornal Pequeno. Apresentou o programa Capital Político na Rádio Capital, foi sócio da revista Atos & Fatos — que mais tarde se tornou jornal diário — e participou da fundação dos jornais Diário da Manhã e Jornal A Tarde.
Blog do Luís Cardoso
Nos últimos anos, concentrou-se integralmente em seu blog, consolidado como o mais acessado do estado. Com matérias contundentes sobre corrupção, bastidores da política, temas sociais e policiais, o blog se tornou referência no jornalismo digital maranhense.
Reconhecimento e liderança
Em 2016, Luís Cardoso foi eleito presidente da Associação Maranhense dos Blogueiros (AMABLOG), onde defendeu com firmeza a liberdade de expressão e os direitos dos profissionais da comunicação. Recebeu prêmios importantes, como o de “Melhor Blogueiro de 2018” pelo jornal Itaqui/Bacanga e o troféu “Blogueiro do Ano” em 2023.
Legados
Mesmo sem nunca ocupar uma sala de aula como professor formal, Luís Cardoso formou uma legião de alunos. Inspirou gerações com sua coragem, independência e compromisso com a verdade. Seu legado vive na imprensa maranhense e no fortalecimento dos blogs como instrumentos de fiscalização e denúncia.
Luís Cardoso se foi, mas deixa uma história que ainda será contada por muito tempo — por aqueles que aprenderam com ele, mesmo à distância, mesmo sem saber.



