Quem é Samir Xaud, o cartola semi-amador de Roraima escolhido por Sarney e Romero Jucá para comandar a CBF
Futebol roraimense sob Xaud é semi-amador, disputado em um único estádio. Novo presidente da CBF tem histórico de processos, vínculos com escândalos e é ligado a dois dos políticos mais influentes (e controversos) do Brasil.
Quando política e futebol se misturam na panela da CBF, o brasileiro já sente o cheiro de que algo não está certo. E quando os ingredientes principais são José Sarney e Romero Jucá, o prato servido costuma ser indigesto para a transparência. Foi assim que, neste domingo (25), o roraimense Samir Xaud, apadrinhado pelos dois caciques políticos, foi eleito presidente da Confederação Brasileira de Futebol.
Xaud, médico de 41 anos e dirigente de um futebol regional semi-amador, comandará a CBF pelos próximos quatro anos. Ex-vice-presidente da Federação Roraimense de Futebol, ele é filho de Zeca Xaud, que preside a entidade há 42 anos e mantém o campeonato estadual disputado quase sempre em um único estádio.
O novo cartola máximo do futebol brasileiro chegou ao topo graças à articulação de bastidor. Com o afastamento de Ednaldo Rodrigues, foi Fernando Sarney — filho do ex-presidente José Sarney e interventor da CBF — quem costurou a eleição-relâmpago. Ao lado de Romero Jucá, ex-líder de governo de Sarney no Senado e padrinho político da família Xaud, orquestrou a escolha de um nome “de confiança” e sem musculatura nacional: Samir.
Desconhecido, mas bem apadrinhado
Formado em medicina, Samir Xaud tentou carreira política pelo MDB, o mesmo de Sarney e Jucá, e virou primeiro suplente de deputado federal. Não se elegeu, mas nunca saiu do jogo. Faixa-preta de jiu-jitsu, instrutor de crossfit e empresário do ramo fitness em Boa Vista, Xaud também administra uma clínica médica que patrocina clubes locais como Náutico-RR e Atlético Progresso.
Sua atuação no futebol sempre foi restrita a Roraima, um dos estados com menor representatividade no esporte nacional. Apesar disso, conquistou rapidamente o apoio da maioria das federações estaduais, que têm peso triplo nas eleições da CBF, o que inviabilizou candidaturas como a de Reinaldo Carneiro Bastos, da poderosa Federação Paulista de Futebol.
Clubes rejeitam, federações impõem
Dos 40 clubes com direito a voto, apenas dez apoiaram Samir Xaud. Os demais boicotaram a eleição ou preferiram o silêncio. Já 25 das 27 federações estaduais estiveram ao lado do candidato único. Com isso, ele obteve 103 votos dos 108 possíveis, em votação secreta e marcada por forte rejeição entre os principais times do país.
O desequilíbrio no peso dos votos escancarou mais uma vez a distorção estrutural da CBF: federações amadoras continuam decidindo os rumos do futebol profissional.
Um passado com manchas
Apesar do discurso de “gestão descentralizada”, Xaud traz um histórico controverso. Ele responde a processo por improbidade administrativa no Tribunal de Justiça de Roraima, acusado de participar da falsificação de documentos quando dirigia o Hospital Geral de Roraima, o que teria gerado prejuízo de R$ 1,4 milhão aos cofres públicos, segundo o Ministério Público Estadual.
Sua defesa alegou que o caso foi arquivado, mas documentos do TJRR mostram que a ação segue em tramitação. Além disso, ele já foi sócio de Simone Bekel, presa pela Polícia Federal na Operação Escuridão, que apurou fraudes em contratos de alimentação em presídios de Roraima.
Há ainda suspeitas sobre um terreno de Xaud na Reserva Itapará-Boiaçu, área de proteção ambiental. A propriedade consta em parecer da Fundação Estadual do Meio Ambiente como alvo de cancelamento de cadastro rural por estar em área protegida. Ele nega ser dono da terra.
Para completar, duas de suas irmãs estão ligadas a escândalos políticos: Samara foi assessora do senador Chico Rodrigues (aquele do dinheiro na cueca), e Sandrea é casada com um empresário acusado de superfaturar testes de Covid-19.
O que esperar de sua gestão?
Apesar das sombras, Xaud promete uma CBF “mais próxima dos clubes”, descentralização de decisões e apoio à criação de uma liga para administrar o Brasileirão. Prometeu também investir na arbitragem e encurtar os campeonatos estaduais. Resta saber se conseguirá — ou se terá autonomia para tanto.
A verdade é que sua eleição consolida o retorno de José Sarney ao centro do poder esportivo nacional, por meio de seu filho Fernando, que há anos ocupa cargos na CBF. É a vitória da velha política sobre qualquer tentativa de renovação no futebol.
Xaud tem o mandato até maio de 2029. O futebol brasileiro, mais uma vez, seguirá sendo jogado — e decidido — fora das quatro linhas.
Veja abaixo a entrevista de Anthony Garotinho sobre essa articulação que teria envolvido José Sarney, Romero Jucá e Gilmar Mendes.



